Bastidores: Hugo Pascottini Pernet

Escritor carioca revela os detalhes do romance satírico “Diário de um presidente”

Perfil

Hugo Pascottini Pernet nasceu no Rio de Janeiro em 1990. Formou-se em jornalismo pela PUC-Rio. É pós-graduando em Escrita Criativa (Nespe). Publicou Memórias da infância em que eu morri (Penalux, 2018) e Lembranças das drogas que me mataram (Penalux, 2019 – I Prêmio Book Brasil, categoria Romance Contemporâneo). Trata-se dos dois primeiros volumes da trilogia de autoficção Entre Realidade e Invenção. Hugo faz parte d’Os quinze, grupo literário que publicou dois livros de contos: Contágios (Oito e Meio, 2016) e Ninhos (Patuá, 2019). Diário de um presidente: As aventuras de Jair na ilha de Dilma é seu terceiro romance.

A gênese da criação

Prefiro começar a escrever quando estou tomando banho ou lavando a louça. Inicio o ato da escrita também sentado na frente do computador, mas, nesse momento, em geral, prefiro transferir para o arquivo em Word as cenas, diálogos, descrições etc que visitam o meu pensamento enquanto eu esfrego o sabonete pelo meu corpo ou a esponja nos pratos e copos sujos na pia. Uma vez sentado na frente do computador, desenvolvo raciocínios ligados ao projeto literário em construção e exerço uma atividade bem fácil – facílima! –, como já disse o poeta Pablo Neruda: “Escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca as ideias”.

Comecei a escrever o texto que originou o Diário de um presidente sem muita pretensão. Inicialmente, não existia a figura do presidente nem do Brasil. Sem montar esquemas, fichas com características de personagens e afins, transferi para o papel ideias de uma narrativa na qual, resumidamente, uma ilha que vive à base de subsistência, sem hierarquias sociais, é atacada pela sociedade capitalista. Não me lembro exatamente quando veio o estalo para transformar essa tal sociedade capitalista em uma figura inspirada na imagem do presidente do Brasil. Digo “inspirada”, pois Diário de um presidente é uma ficção satírica, cujos principais temas são construção das narrativas políticas, COVID-19, sátira política, preservação ambiental, preservação cultural, racismo, populismo, esquemas políticos, fake news, liberdade política, povo brasileiro.

Escritor antiprofissional

Outro assunto, cuja abordagem me interessa, é o consumismo, intrínseco na ditadura invisível do capitalismo, que engloba a ditadura da posse, do lucro, do sucesso, das convenções e do utilitarismo. Para manter meus princípios e continuar inserido no mercado editorial, elaborar estratégias de marketing digital, me inspiro nos versos da música Filosofia, de Noel Rosa: “Mas a filosofia hoje me auxilia a viver indiferente assim. Nessa prontidão sem fim, vou fingindo que sou rico, pra ninguém zombar de mim”. Bem, vou fingindo que sou um escritor profissional, para os leitores continuarem comprando meus livros. Como a escritora Clarice Lispector, não me identifico com o rótulo de escritor profissional. Essas duas palavras juntas até me incomodam, quando usadas para me apresentar a outras pessoas. A justificativa vem de um mini discurso de Clarice, ao receber, em 1976, o Prêmio da Fundação Cultural de Brasília, por Conjunto da Obra: “Eu não sou uma profissional. Profissional escreve todos os dias, porque precisa. Eu escrevo quando quero, porque me dá prazer.” A escritora argumentou em outra ocasião: “Eu faço questão de não ser profissional, para manter minha liberdade”. No entanto, se for necessário que eu me apresente como escritor profissional para “ganhar” leitores, ganhar autoridade, tudo bem, não custa nada – nem muda nada – eu dizer “sou um escritor profissional, prazer”.

Tateando no escuro

Acredito que minha trilogia de autoficção é uma espécie de apresentação do Hugo Pascottini Pernet autor, para, em meus próximos projetos literários, eu abordar temas relacionados aos malefícios causados pelo sistema capitalista à natureza do planeta e à natureza humana. No entanto, vejo o ato da escrita como Affonso Romano de Sant’Anna: “Abrir-se à arte é como dar um salto mortal no escuro, para que todos vejam”. Como autor, me observo em uma eterna cambalhota mortal, de olhos fechados. É difícil cravar os assuntos que abordarei em meus próximos livros publicados. Talvez a escuridão me guie para caminhos contrários à minha expectativa.

Sobre o diário

Diário de um presidente, cuja segunda parte é escrita em forma de ‘diário do presidente Jair’, ganhou enredo naturalmente, uma vez que a cada dia, no Brasil, ocorre uma nova bizarrice. É como disse o humorista Marcelo Adnet, que criou, na quarentena, um quadro, na Globo, para ironizar as atitudes do governo Bolsonaro: “As piadas já vêm prontas”. Para Adnet, bastava, na maioria das vezes, reproduzir, por meio de suas ótimas imitações os discursos do presidente. Em muitas partes do Diário de um presidente, tive trabalho similar ao do Adnet; no entanto, em vez de usar a voz e minha imagem, usei palavras escritas. Para isso, eu tive apenas de criar um estilo de escrita que imitasse um possível diário do presidente. O humor nasceu, naturalmente, da própria realidade. Afinal, há muita gente que diz que esse governo é uma piada.  

Posicionamento político

Como autor, em um país polarizado politicamente, me sinto na obrigação de ter um posicionamento político, mas sem, necessariamente, criar obras panfletárias. Simpatizo com a esquerda, mas não sou afiliado a nenhum partido. Não sou petista, por exemplo. Posso, porém, gostar de propostas de alguns candidatos do PT. E de outros partidos mais ligados à esquerda. Como autor, me ponho, principalmente, na posição de observar, pensar, estudar e experimentar o mundo, de um ponto de vista de maior distanciamento possível que cabe a um escritor, a um escritor que não encara a escrita como uma profissão, mas, muito além disso, como uma maneira de estar no mundo.  

Carta aos leitores

Pouco tempo antes de a editora Patuá iniciar o trabalho de edição, o título da obra era A ilha e o diário do presidente Jair. Fiquei em dúvida entre os dois títulos por muito tempo e acabei – acho que mais por um impulso – por optar pela segunda opção, Diário de um presidente: As aventuras de Jair na ilha de Dilma. No início do livro, escrevi uma “carta ao leitor”, na qual tento transparecer meu olhar sobre o que é a obra, na minha concepção, e relacioná-la com este período sombrio de quarentena no qual vivemos. Segue, abaixo, o conteúdo da carta:

Caro leitor,

Este livro é uma obra de ficção.

Não é um livro-reportagem.

Não é um livro de jornalismo literário.

Não é uma biografia romanceada.

Isto não é um romance, isto não é uma novela, isto não é um conto, isto não é uma crônica, isto não é uma biografia, isto não é um roteiro, isto não é uma peça de teatro, isto não é um livro policial, isto não é um livro de fantasia, isto não é uma paródia, isto não é uma dissertação, isto não é uma tese, isto não é um manifesto político etc. E isto também não é um livro infantil, isto não é um livro juvenil, isto não é um livro adulto.

Então, o que é isto?

Isto não se encaixa integralmente em nenhum gênero específico e, ao mesmo tempo, abarca elementos de alguns gêneros citados acima.

Eu não gostaria de rotular este projeto literário.

No entanto, se eu tiver de classificá-lo, digo, inicialmente, que este livro é resultado da união entre meus trabalhos de jornalista e de escritor.

Acrescento, caro leitor, que o texto se aproxima de uma sátira.

Trata-se, então, de uma ficção satírica.

De acordo com o dicionário Aurélio, sátira é uma “construção poética, livre e repleta de ironia que se opõe aos costumes, ideias ou instituições da época em questão. Construção poética com o propósito de criticar: sátira política. Composição poética cujo objetivo é ridicularizar vícios e/ou comportamentos. Crítica categórica e austera que, feita de maneira irônica, causa zombaria”.

Do ponto de vista de uma obra ficcional, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real, é mera coincidência. Do ponto de vista satírico, trata-se de mera ironia e crítica aos costumes, ideias ou instituições de nossa época, como define o dicionário Aurélio.

Escrita e reescritas

Este livro foi escrito entre outubro de 2019 e início de maio de 2020. Passado esse período, dediquei-me às reescritas.

Vale ressaltar que a maior parte do livro foi escrita entre março e início de maio, período em que o governo pediu para os cidadãos brasileiros permanecerem de quarentena sem sair de casa. Nesse período, o Brasil registrou os primeiros casos de mortos vítimas de infecção do coronavírus, que originou uma pandemia que modificou os hábitos da população mundial e assolou a economia de diversos países.

(Uma curiosidade não foi relatada na ‘carta ao leitor’: antes da pandemia, meu casamento estava marcado para ocorrer no fim de março de 2020. Com a notícia da proliferação do coranavírus no Brasil e o fechamento temporário das igrejas e casas de festas, tive de adiar o casamento religioso e antecipar, muito às pressas, o casamento civil para o início de março. Desde então, minha esposa e eu viemos morar neste apartamento de onde escrevo este texto e escrevi mais da metade do Diário de um presidente. Ou seja, o livro nasceu em meio a uma eterna e confinada lua de mel (risos). Bem, espero receber, em 2021, os malditos coronavírus enfraquecidos, em forma de vacina, e em seguida, as bençãos do padre fortalecidas pela frase “felizes para sempre”, em forma de filme enlatado blockbuster. Assim, poderei, com total segurança e tranquilidade, levar aos Correios exemplares do “Diário de um presidente”, vendidos por meio da internet.)

Corto ou não corto?

Confesso que durante todo o processo de reescrita deste livro, o pensamento que me ocorreu com mais frequência foi: “Corto ou não corto este trecho?”. Optei, na maioria das vezes, pela segunda opção. Optei por deixar digressões. Optei por deixar algumas repetições – o que é uma falha do ponto de vista da técnica literária.

Explico minha decisão: Você, caro leitor residente no Brasil, vive em meio ao mandato de um governo que pretende reduzir tudo, até mesmo o número de páginas dos livros. Então, se este governo exige que os livros se restrinjam, por exemplo, no máximo, a 50 páginas, escreverei um miniconto de três linhas, em sequência, repetidamente, até preencher 300 páginas. Mesmo que, com isso, eu corra o risco de você, caro leitor, em alguns momentos, após ler mil vezes o mesmo texto, fechar o livro e dizer: “Nada acontece nesta parte da história. Eu quero ver sangue. Explosões. Somente cenas de ação!”.

Comecei a escrever este livro rindo. Rindo de nervoso, claro.

Terminei de escrevê-lo sem poder sair de casa.

Imagino, porém, que, na data de publicação desta obra, o mundo já estará “curado” do coronavírus. Dessa maneira, voltarei a andar livremente pelas ruas.

Em caso de homicídio doloso deste autor que lhe escreve, caro leitor, peço, encarecidamente, que divulgue, ainda mais intensamente, este livro.

Brincadeiras à parte – ou não –, desejo-lhe uma leitura leve, agradável e divertida.

Pois existem várias maneiras de resistir a um governo tirano:

Ler é uma delas.

Rio de Janeiro, 10 de junho de 2020 (última atualização)

Hugo Pascottini Pernet

A carta termina aqui e, infelizmente, o mundo ainda não está “curado” do coronavírus, como eu imaginei ao escrever esse texto destinado ao leitor do livro.

Escritor independente

Desde o meu primeiro romance, publico minhas obras de modo peculiar: primeiramente, eu lanço o livro de modo independente na Amazon, em formato digital, depois a editora – no caso dos dois primeiros, a Penalux – se encarrega de transformar meu projeto literário em livro físico. Desta vez, o trabalho ficou a cargo da editora Patuá. Acredito que, ao publicar o e-book, de modo independente na Amazon, em geral, por R$9,90, possibilito o acesso à leitura para muitas pessoas que não têm condições financeiras de comprar um livro por R$40 e chegar ao fim do mês com dinheiro para se alimentar e viver de modo digno. Logo nos quatro primeiros dias após a publicação do e-book, decidi, como muitos autores fizeram na época, disponibilizar o livro digital gratuitamente no site da Amazon. Durante esse período, foram baixadas mais de mil unidades, e o livro ficou em primeiro lugar no ranking dos mais vendidos – categoria sátira – durante alguns dias.  

Eu não tenho a preocupação de vender meus livros; eu sempre tive – e ainda tenho – sim o compromisso comigo mesmo de vender meus livros. (Uma vez que decido publicar um projeto literário, me comprometo a trabalhar – ao meu jeito – a divulgação do livro, por pelo menos um ano.)  Sempre tive – e ainda tenho –, sim, a preocupação de ser lido. Uso as redes sociais – principalmente o Instagram – para me aproximar dos leitores. Talvez, por isso, meu primeiro romance, Memórias da infância em que eu morri, consequentemente, vendeu bem. E meu segundo romance, Lembranças das drogas que me mataram, venceu o Prêmio Book Brasil, na categoria romance contemporâneo. Talvez por eu ser desapegado do número de exemplares vendidos e de organizar noites de autógrafos – embora eu tenha consciência da importância desses dois tópicos no âmbito mercadológico –, eu tenha criado uma filosofia que se baseia em aproveitar e focar no prazer do processo, e não do resultado. Não importa tanto aonde vou chegar, o importante é se entregar à caminhada (sei que soa meio como um clichê de autoajuda). Aí você vai me dizer: “É muito fácil e romântico todo esse seu discurso, porque você foi criado em uma bela casa, dentro de um ambiente familiar de classe média. E quem mora na favela?” É claro que tenho consciência dos privilégios que me acompanham desde a minha formação acadêmica. Se eu fosse criado em um ambiente de escassez, por exemplo, de alimentos, seria muito mais difícil de eu argumentar “não se preocupe tanto em ganhar dinheiro, faça aquilo que você ama” e decidir perseverar nessa jornada de autoconhecimento que a escrita me proporciona. No entanto, se você está realmente decidido a escrever, a sentir o prazer do processo de encher folhas e mais folhas com palavras e mais palavras, nada poderá interromper esse seu impulso involuntário, incontrolável e misterioso. Para ilustrar essa situação, cito, como exemplo, dois escritores brasileiros contemporâneos cujas raízes cresceram às margens da sociedade. Ferréz e Geovani Martins já escreveram dentro de um barraco, muitas vezes, sem saber o que comeriam no dia seguinte. Uma provocação: o que falar, então, de Carolina Maria de Jesus? Ou melhor, para citar o escritor Marcelino Freire: em seu curso de escrita, Marcelino sugere uma maneira para o aluno descobrir se deve ou não se dedicar a essa longa jornada de escrever ficção: “Você deve se perguntar: ‘Se eu tirar a literatura da minha vida, o que sobra?’”.

Capa do livro “Diário de um presidente”, editado pela Patuá.

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O conteúdo de Bastidores é de uso exclusivo do site The Quarentena.

Márwio Câmara é escritor, jornalista, professor e crítico literário. Editor-chefe e idealizador do site The Quarentena.

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