Bastidores: Franck Santos

Escritor maranhense conta os detalhes da produção do livro “Os Blues que não dançamos”

Franck Santos é um homem comum, ilhado em São Luís, cidade esta que tem mar, porto, muitas histórias, sol e céu azul o ano inteiro, mas prefere dias nublados e chuvosos, uma casa no campo, vinho e blues. Publicou os livros Quando o azul não desbotava (Editora Penalux, 2014), Poemas para dias de chuva (Editora Patuá, 2015), Do lado de cá do Atlântico (Editora Penalux, 2017), Os mapas sinalizam ilhas submersas (Editora Penalux, 2018), Fotogramas (Olho D’Água Edições, 2019) e Os blues que não dançamos (Editora Moinhos, 2020)

Universo gay na literatura

Acho que cada livro possua um processo de escrevê-lo, uma história de nascimento própria. Os blues que não dançamos é a minha segunda prosa longa. Antes publiquei pela Editora Penalux, em 2017, ‘Do lado de cá do Atlântico’, que é também uma investida no amor GLBTQ+, nesse, um quarteto romântico e ainda tenho alguns livros de poemas, totalizando seis livros publicados.

Como minha renda não vem da literatura (com certeza como a maioria dos escritores brasileiros), sou professor da rede estadual e bancário, atividades essas que me consomem bastante, escrevo geralmente aos fins de semana, ao amanhecer, sou muito diurno nos processos da escrita, então quando as ideias surgem, vou anotando-as em agendas e/ou cadernos, os quais sempre carrego comigo.

Estamos carentes de literatura GLBTQ+, lermos sobre a solidão, os amores e desamores, os afetos e desafetos, a velhice que permeiam os personagens desse universo, sempre um tabu. Desde a morte de Caio Fernando Abreu em 1996, talvez essa lacuna esteja sendo preenchida nos últimos anos com as editoras investindo mais nessa literatura e com os prêmios para publicações do gênero.

A realidade inspirando a ficção

Escrever sobre ‘Os blues que não dançamos’ foi quase como uma catarse. Tinha algumas anotações sobre um cara de cinquenta anos questionando as relações homoafetivas, seu envelhecer. Um dia um amigo me contou sobre ter conhecido um rapaz de São Paulo através de um site de relacionamentos, que estavam marcando um encontro, encontro esse que não aconteceu. Esse meu amigo ficou muito deprimido com o não encontro. Esse relato culminou com a morte de outro amigo, também de São Paulo, o qual era músico, e foi o mote para que a narrativa fosse desenvolvida. É um livro quase biográfico, nas suas devidas proporções, claro, pois partir de acontecimentos reais e das minhas divagações quando fiz cinquenta anos.

Recusa e aceitação

Escrevi esse livro como se conversasse com Bento e Pedro. Eu gosto de gente, de ser gente, talvez por isso meus dois romances sejam sobre suas necessidades e interesses amorosos, independente de suas diferenças culturais, geográficas e idades. Gosto muito do resultado final, mesmo os personagens sendo ficcionais, os cenários, as cidades, as músicas e filmes existam, foi uma escrita que todo o processo fluiu desde o começo até o final, talvez por ter toda a trama e estrutura na minha cabeça. Eu o escrevi talvez em dois ou três meses e deixei o original guardado, maturando, não sabia se aceitariam o enredo, como de fato aconteceu quando o enviei a uma editora e o editor o recusou, pedindo que o reescrevesse, mudasse a ‘causa’ do desaparecimento de Pedro. Percebi que não era o motivo do personagem ter sumido que o incomodava, mas a temática do livro em si. Mais uma vez, eu o guardei. Em janeiro de 2019, encontrei o editor Nathan Matos, da Editora Moinhos, por acaso, numa livraria em Fortaleza, e até então não nos conhecíamos pessoalmente. Nessa conversa, comentei sobre ‘Os blues que não dançamos’, ele pediu que enviasse o original para uma avaliação e, com sua sensibilidade, aceitou publicá-lo e saiu este ano.

O amor não tem sexo

Recebi e continuo recebendo feedback das pessoas me contanto que chorou com Bento, que sentiu raiva de Pedro, que conhece histórias parecidas, que poderia ser uma peça teatral ou um filme. Estou muito contente com esse burburinho que o livro tem feito. Que de fato o amor não tem sexo, que amar independe da idade, que ousamos dizer sempre o nome desse amor e dançarmos todos os blues possíveis.

Capa do livro “Os blues que não dançamos”, editado pela Moinhos.

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O conteúdo de Bastidores é de uso exclusivo do site The Quarentena.

Márwio Câmara é escritor, jornalista, professor e crítico literário. Editor-chefe e idealizador do site The Quarentena.

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