Elucubrações tradutórias – parte 1

O tradutor Max Leite estreia sua coluna descortinando o trabalho da tradução literária

Eu sou um tradutor. Faço principalmente traduções técnicas e literárias. Tradução técnica, para quem não sabe, abrange um campo amplo, desde manuais de máquinas variadas a currículos de funcionários de uma companhia de petróleo. No meu caso, as especialidades dentro do escopo de tradução técnica em que mais tenho experiência são, em primeiro lugar, pedidos de patentes de invenção (um ramo bem interessante, por sinal, apesar de seu caráter geral repetitivo – característica que se pode dizer inerente, aliás, à tradução técnica como um todo) e documentos da área de engenharia mecânica e petróleo e gás. Pode-se afirmar que esse tipo de tradução é mais simples e direto que a tradução literária ou outros tipos de tradução que exijam mais criatividade, como a de marketing, por exemplo. De fato, alguns afirmam inclusive que ela, a tradução técnica, assim como muitas categorias profissionais, está fadada a ser quase totalmente automatizada (alguma revisão humana sempre será necessária, creio eu) num futuro não tão distante.

Na verdade, há uma boa quantidade de habilidades bem distintas entre o ato de traduzir um pedido de patente, por exemplo, e o de traduzir um romance ou um livro de contos (sem falar da poesia), porém é sim necessário um maior grau de criatividade e inventividade na tradução dita literária, tornando esta, assim, mais complexa e trabalhosa na maioria dos casos. Sem contar os trocadilhos, jogos de palavras, escolhas lexicais, marcas de oralidade nos diálogos, dentre vários outros desafios que normalmente as escolhas formais diferenciadas dos textos literários apresentam ao seu tradutor e muitas vezes lhe precipitam a calvície, há ainda todas as outras as incumbências intrínsecas ao fazer tradutório, tais como pesquisas terminológicas, buscas em dicionários e glossários, adequação vocabular, etc., além da própria transposição de um texto para um outro idioma e tudo o que isso implica em termos de reestruturações sintáticas e adaptações de diferentes culturas e visões de mundo para se obter o que podemos chamar de correspondência entre os dois textos — ao contrário do que muitos possam pensar, a tradução profissional não é o simples (sic) ato de traduzir um texto palavra por palavra de uma língua para a outra.

Eu sou um tradutor literário, como dito, mas sou também um escritor. E creio que justamente por estar nessa posição ambidestra que experimentei o misto de sensações que senti ao ler, não muito tempo atrás, em um grupo literário do Facebook, o depoimento de uma pessoa dizendo que não conseguia gostar da literatura nacional e, portanto, só consumia as literaturas estrangeiras. Um misto de sensações em que a principal era, sem dúvidas, a tristeza. Por quê? Bem, presumindo que a pessoa que confessou seu desinteresse pela literatura do seu país não lê em outras línguas — o que não é uma suposição tão despropositada, considerando que, segundo um levantamento feito pela British Council, somente 5% da população brasileira consegue se comunicar em inglês, por exemplo, que é a língua mais difundida do planeta e uma das que mais exportam literatura para o mundo, o Brasil incluído — isso sem mencionar o ainda enorme analfabetismo funcional na própria língua portuguesa. Como ia dizendo, partindo do pressuposto razoável de que ela não domina outros idiomas, isso não significa outra coisa senão que ela só lê tradução.

Sim, o tradutor literário é alguém de muitas habilidades, mais inclusive do que as já citadas, e até de talento mesmo, mas ele não é um escritor. E sim, eu disse que sou tradutor literário e escritor, mas não as duas coisas ao mesmo tempo. O tradutor literário, com todos os malabarismos que com frequência precisa fazer para alcançar a chamada correspondência no texto de chegada, tem ainda assim bem menos liberdades do que o escritor — que é, nesse caso, um malabarista de seis braços. Ele estará sempre limitado pelo texto que se dispor a traduzir, pelas escolhas linguísticas e estilísticas deste, pelo sentido que apreende ali, pela lógica(!)… O tradutor não é um traidor, mas há sim sempre, ou quase sempre, alguma perda resultante do processo. Então sim, o que eu sinto é principalmente tristeza pela pessoa do depoimento — essa representante de uma porcentagem alta dos leitores atuais. Se ela gosta do malabarista de dois braços, o que não acharia do de seis? Tantas facas e bastões de fogo perdidos, resplandecendo em outros ares, fazendo brilhar outros olhos que não os seus.

Max Leite é carioca, formado em Letras (Português-Literaturas), com pós-graduação em Língua Inglesa e Suas Literaturas pela Universidade Estácio de Sá. Poliglota, é escritor, poeta e tradutor. Publicou recentemente o e-book “Antes do pôr do sol”, disponível na Amazon.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s