Bastidores: Ney Anderson

Jornalista e escritor pernambucano revela as minúcias do livro de estreia “O espetáculo da ausência”

Perfil

Ney Anderson é jornalista, escritor e crítico literário. Tem contos publicados em diversas antologias. Entre elas: Contos de Oficina (Editora Bagaço), Livrinho de Papel Finíssimo e Carrero com 70 (Cepe Editora). Lançou seu primeiro livro de contos O espetáculo da ausência, pela Editora Patuá.

Sem pressa

Comecei a escrever os contos d’O Espetáculo da Ausência há dez anos, ou talvez um pouco mais. Eu não tinha pressa de lançar livro solo, depois de ter participado de várias antologias. Apenas queria fazer isso quando sentisse que o livro estava realmente pronto. E como ter essa resposta? Para mim, enquanto leitor, quando senti que as histórias tinham consistência e os personagens haviam criado corpo e personalidade. Embora a individualidade deles (dos personagens) já tenha surgido de maneira fragmentada, com questões existências muito próprias, eu fui encorpando o lado obscuro em cada um deles, traçando perfis que pendiam sempre para situações de confronto com a vida. Ou seja, o meu objetivo era que os personagens existissem e não fossem meros fantoches de papel.

Muitas ideias na cabeça e um bloquinho na mão

Como eu ando com as antenas ligadas nos 220 volts, para usar a mesma expressão do escritor (ótimo escritor) Marcelo Moutinho, fui captando muitas coisas ao meu redor. Acontecimentos, episódios corriqueiros do dia a dia, cenários, momentos, falas, olhares, incidentes e instantes que poderiam se perder no ar, mas que eu fui anotando, guardando, deixando descansar nas pastas do computador, nos bloquinhos, nos e-mails etc, para servir de material a ser utilizado de forma totalmente ficcional. Essa prática para mim já é orgânica, natural. Absorver tudo me deu (e me dá) um sentido curioso de criação literária. Eu preciso sentir as sensações, participar como um voyeur do cotidiano. Mas também outros aspectos foram surgindo e me ajudando a criar os contos.

Literatura e música

A música, por exemplo, é algo que me despertou muitas ideias. Ao menos uns dez contos foram escritos sob a influência de canções, principalmente por conta da melodia. Angela Ro Ro, Simone, Ney Matogrosso, Heitor Villa-Lobos, Múcio Callou, Nelson Ferreira, Capiba e tantos outros, me ajudaram na condução das tramas. Mas não foi nada provocado, no sentido de começar a ouvir determinada música para ter alguma ideia. Um exemplo disso foi o conto “A casa vazia”. Quando ouvi o CD Suíte 1817, que é uma obra musical de câmara, do artista Pernambuco Múcio Callaou, que tem na sua base a flauta, violoncelo, violão e contrabaixo, na hora a história começou a se desenrolar na minha cabeça. Abri o notebook e comecei a escrever sem parar. Depois coloquei o CD no início e prossegui por alguns dias. Foi incrível. Claro que depois veio o trabalho de carpintaria. Mas a base do conto já estava toda montada.

“Já não sou o único que encontrou a paz” também foi dessa forma. Claramente influenciada por Balada do Louco, dos Mutantes, que explodiu na voz de Ney Matogrosso na década de 1980. Nesse conto eu coloquei três personagens no centro da história. O intérprete (Ney) e também um pai e o filho que são fãs dele. Embora seja muito próximo da minha vida pessoal, esse conto é ficção pura. Tudo o que está escrito foi pura invenção. No entanto, é uma história que me toca até hoje, porque, justamente, representa muitas coisas da minha própria vida e também serviu de homenagem ao meu pai (já falecido), para quem o livro é dedicado. E a coletânea encerra justamente tocando esta música.

Diálogo com outras linguagens

Durantes os anos que eu fiquei escrevendo O Espetáculo da Ausência muitos outros aspectos criativos foram surgindo. A cultura pop é uma delas. Referências aos filmes do Jason ou Freddy Krueger se apresentaram naturalmente porque serviram para a atmosfera que eu estava buscando. Da mesma forma que notícias na imprensa. Assim como fotografias antigas, imagens em revistas e jornais, e toda uma gama de coisas que o mundo oferece. Basta estar atento para saber captar. Tudo isso, obviamente, envolto nos dilemas que os personagens estão passando no meio do caminho, onde a morte está muito presente em todos os contos. Em algumas ocasiões, de maneira subtendida.

Recife como alma do negócio

Mas sem dúvida nenhuma a principal influência para o meu livro ganhar corpo foi entender a energia que eu sentia caminhando pelas ruas do centro do Recife. Essa fatia da cidade sempre exerceu um poder enorme na minha cabeça, desde criança. A intenção não foi recriar trejeitos, gírias ou mostrar a peculiaridade do povo. Não estou dizendo que seria um erro. Nada disso. Eu via ali dramas completos, com personagens riquíssimos, lutando contra coisas que eles mesmos não sabiam direito. E quando falo isso é a partir do olhar do ficcionista já criando as angústias deles apenas através da observação. É aquela coisa de ver uma cena e começar a transformar em ficção. Quando sinto frio na barriga, sei que o bichinho criativo já está roendo, doido para ganhar as páginas.

Então, a cidade, modéstia à parte, passou a ser só minha. Ou melhor, das figuras que habitam O Espetáculo da Ausência. Ou seja, eu consegui imprimir a percepção deles sobre esse universo, que ninguém tinha utilizado até então. Quero dizer que mesmo admirando autores que utilizaram esses mesmos signos, eu criei algo interessante, particular, inquietações sobre o mundo para cada um dos personagens. Essa é a grande alegria. Pode transportar para a ficção várias percepções de mundo. Mas são percepções dos personagens. Apenas deles, na maioria dos casos. De forma que os personagens fluam, ganhem corpo, memória e passem a caminhar com as próprias pernas. E não sejam covers ou arremedos de outros. Eu quis mostrar que os personagens têm as suas próprias questões mal resolvidas, lutando contra os próprios demônios. O inferno de cada um. E todos eles se cruzando no mesmo lugar. Em uma Recife que serve de ponto de encontro, com jeito de fim de mundo. Estranha. Mas é a cidade vista pelo ponto de vista deles. Não é o ponto de vista do leitor ou do escritor.

Labirinto

É preciso estar atento para perceber os detalhes escondidos nos olhares, nas pequenas observações e nas situações aparentemente banais que rondam todo o livro, mas que carregam todo um lado submerso, que eu quis deixar assim. Claro, calcado na linguagem aparentemente simples que eu utilizei.

Embora as histórias possam ser claramente uma influência do mundo exterior (qual história não é?), é a ficção que se sobressai. O real apenas no campo da imaginação, do ficcional, da pura literatura. Os textos caminham pelo tom do suspense e da dúvida, com os contos sendo interligados e fundidos em ideias muito próximas. Para mim, O Espetáculo da Ausência é um labirinto. Quando o leitor acha que está livre de uma história, ou personagem, eles estão refletidos em outras.

Como bem notou o Luiz Antonio de Assis Brasil no prefácio, simplicidade é força. Sem dúvida, esse é o trunfo do livro. A força narrativa está exatamente pelo não dito, mas mostrado nas ações e situações dos personagens. Não poderia trabalhar com temas tão fortes entregando tudo de bandeja. Não é necessário reinventar a roda. Apenas fazer ela girar pelas próprias engrenagens.

***

O conteúdo de Bastidores é de uso exclusivo do site The Quarentena.

Márwio Câmara é escritor, jornalista, professor e crítico literário. Editor-chefe e idealizador do site The Quarentena.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s