Bastidores: Jonatan Silva

Jornalista e escritor curitibano revela os detalhes sobre o livro de contos “Histórias mínimas”

Perfil

Jonatan Silva é jornalista, crítico literário e escritor. Passou pelas redações da Tribuna do Paraná e Paraná Online. Foi editor da revista Mediação do Colégio Medianeira e, atualmente, escreve regularmente com o jornal Rascunho e Cândido, e também o portal de cultura Escotilha. Trabalha no SESC-PR, na área de Literatura. Autor dos livros O estado das coisas (2015) e Histórias mínimas (2019).

Detetive do absurdo

Escrever é investigar. Acho que, talvez, essa seja a definição mais próxima do trabalho do escritor. Em primeiro plano, acredito que esse processo de investigação se dê um âmbito puramente pessoal: aquele que escreve, busca, acima e antes de tudo, descobrir a si mesmo, se revelar. Depois, o processo de escrita ganha uma perspectiva externa, que apresenta ao leitor aquilo que também estava obscuro.

Meus dois primeiros livros – O Estado das coisas (2015) e Histórias mínimas (2019) – surgiram desse desejo de escrutínio. Em ambos, o eixo que os liga cada um dos contos é o absurdo, um absurdo escondido sobre o verniz da normalidade e da realidade. É aquele ideal kafkiano de encontrar terror nas coisas mais simples. Hoje, percebo também que existe um quê de incomunicabilidade e de impossibilidade – como se houvesse sempre um elemento que nos levasse à paralização.

Em alguma medida, meus contos são o reflexo da minha bestifcação com o cotidiano, entretanto, escolhi descrevê-lo por uma ótima destorcida, como se fosse observado em uma casa de espelhos – em que se apresentam as mesmas figuras, porém, completamente deformadas. Essa lógica, penso eu, me foi revelada, primeiramente, pelo Kafka e depois ampliada pelo Bruno Schulz – numa edição lindíssima publicada pela Cosac Naify com toda a sua ficção –, pelo Gonçalo M. Tavares – que em uma conversa que tivemos disse aquilo que considero mais sabido, e óbvio, no universo da escrita: “escrever é diferente de publicar” – e pelo quase esquecido Robert Walser.

A influência de Cortázar

A epifania da escrita, entretanto, só viria – ou faria sentido – poucas semanas depois de publicar O Estado das coisas, quando sentado no chão da Martins Fontes, da Paulista, li “A Casa tomada”, conto que abre Bestiário, do Cortázar. Ainda que já tivesse lido muitas outras coisas do portenho, inclusive Rayuela, foi com aquele continho de poucas páginas que o mundo parece ter se aberto. Ali, sem dúvida, houve uma revelação e, com frequência, volto a esse conto que parece ser o meu aleph.

O Cortázar, por outro lado, sedimentou a minha fixação pela América Latina, algo que começou com o Borges e foi atravessando as décadas – as minhas e as da literatura. Foi pelo Borges que fui à Argentina, pelo Benedetti a Montevidéu – onde li Montevideanos em uma experiência mítica e mística – e pelo Bolaño ensaio uma ida a Santiago.

A busca pela verdadeira persona

Pasear es ir debujando, disse uma vez o Vila-Matas sobre a Trilogia de Nova York, do Paul Auster. Acho que essa é a sensação mais apropriada para quem escreve: caminhar é desenhar, mas é também escrever. E é, portanto, investigar. Esse processo ajuda a explicar, quem sabe, o porquê de a literatura policial ser algo tão fascinante. Nas suas páginas estão a essência de um e de outra, numa simbiose impossível de ser apagada. E a minha literatura é isso: uma investigação permanente, uma tentativa de encontrar nas minhas próprias palavras a natureza de quem sou e de quem você, leitor, também é. A literatura é o ponto que contém todos o mundo – o que já foi e o que virá.

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O conteúdo de Bastidores é de uso exclusivo do site The Quarentena.

Márwio Câmara é escritor, jornalista, professor e crítico literário. Editor-chefe e idealizador do site The Quarentena.

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