Bastidores: Marcelo Labes

Escritor blumenauense revela o processo criativo do romance “Três porcos”

Perfil

Marcelo Labes nasceu em Blumenau, Santa Catarina, em 1984. É autor de, entre outros, Três porcos (Caiaponte, 2020), Paraízo-Paraguay (Caiaponte, 2019), romance, com o qual alcançou a 2ª colocação no Prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional, e Enclave (Patuá, 2018), livro de poemas finalista do Prêmio Jabuti em 2019.

Literatura e memória

Olhando para o que já escrevi, percebo que um tema a que sempre volto é a memória, ou como lidamos com o que lembramos: suas incertezas, seus contornos, o lembrar pode ser um incômodo. A primeira vez que me ocupei de memória em literatura pode ter sido em O filho da empregada, um conto em prosa lírica publicado em 2016. Depois, nos poemas de Trapaça (Oito e meio, 2016) há um eixo do livro que gira em torno do tema. Em Paraízo-Paraguay, o romance se inicia com a catarse de Olga, uma personagem idosa que, à beira da morte, já não tem mais por que esconder tudo de que se lembra. Mas em Três porcos a memória é o carro-chefe da narrativa.

Nesse romance, acompanhamos a história de Rafael, um homem de trinta e poucos anos que após a separação de sua esposa inicia uma busca por culpados por esse e os pelos demais descaminhos de sua vida. Assim, acaba encontrando na infância um dos motivos que talvez tenham lhe feito ser “menos homem” que os homens que admira e de quem tem inveja pelos homens que são. Acontece que Rafael sofreu abusos sexuais quando ainda era um menino e reconhece isso depois de adulto. É então que, enquanto lida com os episódios que acabaram soterrados pelo tempo, mas que vêm à tona rapidamente, Rafael empreende a sua busca por justiça, que no seu caso é a vingança nua e crua.

Construção

Para escrever Três porcos, fiz o que costumo fazer antes de iniciar qualquer jornada, quando me pergunto de que vale / valerá a escrita e a respectiva publicação de um livro. Evidente que as respostas a essa pergunta não são claras, nem poderiam ser. Pois o que sabe o autor de que valerão seus livros? Mas se eu tinha algo claro a respeito de Três porcos, era que não o escreveria sozinho. E a certeza de que não estava errado tem vindo com as respostas de quem o lê; são muitas pessoas me procurando para contar o que lhes aconteceu em suas infâncias, como sobreviveram aos abusos sofridos e como lidam com a questão hoje em dia.

À maneira da narrativa fragmentada de Paraízo-Paraguay, em Três porcos também temos a espiral do tempo exposta nos episódios em que esmiuçamos as lembranças de Rafael. Não somente os abusos que sofreu quando criança, mas também os reflexos de uma sociedade heteronormativa e machista na construção de sua personalidade, de sua sexualidade e de suas neuroses. Afinal, um homem é um homem – à maneira do que nos dizem o que um homem é –, e Rafael não parece encaixar-se nesses padrões.

Já no início eu sabia como a história terminaria, pois o objetivo era a vingança. No entanto, precisava construir Rafael de maneira que não apenas o final fosse justificado, como tinha a necessidade de complexificar esse sujeito. Através de Rafael surgem outros diversos indivíduos: para além do menino, vítima de abuso, é possível ver o jovem descobrindo sua sexualidade, os contornos de homofobia que surgem no homem, o marido que precisa lidar com o silêncio da casa após ser deixado pela esposa, e novamente o menino, quando prestes a concluir aquilo que a se propôs. Há também uma busca incessante pelo “masculino”: Rafael procura seu pai na memória como procura o homem que pensa que alcançaria ser caso não tivesse sido exposto ao desejo egoísta de homens. Aqui, o protagonista – tanto como o autor, tanto como quem lê – perde-se nos emaranhados da memória à procura de quem poderia ter sido.

Na corda bamba da escrita

Não me sinto tão seguro escrevendo prosa como me sinto na escrita de poesia. Por isso, faço o livro chegar a muitas pessoas antes de decidir publicá-lo. Três porcos teve mais leituras prévias do que Paraízo-Paraguay, seja porque não sabia como soaria um romance em primeira pessoa, seja porque lido com temas delicados, com os quais não estamos acostumados a lidar ou a ler. Assim, o livro inicial sempre se torna um outro. As leituras de amigas e amigos me permitiram quase uma reescrita integral do livro. No entanto, cortar excessos nem sempre significa escrever menos. No fim, havia ainda o que ser dito e que não encontrei, enquanto leitor, em minhas primeiras leituras. Por isso, este é já um livro diferente daquele que terminei de escrever, quando o considerei terminado. Nem maior, nem melhor, mas outro.

Perder-se é caminho

Enquanto poeta, tenho disso: nunca sei exatamente o que estou fazendo. Enquanto prosador também. Porque se há um objetivo a ser alcançado – embora ele nunca esteja nítido no início do percurso de escrita –, há também a liberdade de perder-se no trajeto da escritura. Se esse degrau pisado em falso sempre foi meu norte criativo na escrita de poesia, tenho experimentado pisar no ar também na prosa. São movimentos diferentes, claro, entre a concisão do poema e a construção de uma narrativa, mas parece ser esse o meu combustível para a criação: escrever como quem voa, escrever como quem cai.

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O conteúdo de Bastidores é de uso exclusivo do site The Quarentena.

Márwio Câmara é escritor, jornalista, professor e crítico literário. Editor-chefe e idealizador do site The Quarentena.

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