Bastidores: Alê Motta

Contista carioca desnuda o processo criativo do livro de contos “Velhos”

Perfil

Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia 14 novos autores brasileiros, organizada pela escritora Adriana Lisboa. É autora de Interrompidos (Editora Reformatório, 2017) e Velhos (Editora Reformatório, 2020).

Desafio literário

Meu Velhos nasceu de um desafio. Marcelino Freire me desafiou a escrever, algum dia, um livro sobre a velhice. Marcelino me “cutucando” eu não podia ignorar.

No dia seguinte eu abri uma pasta nova no computador e nomeei Velhos. Não notei o quanto aquele desafio mexeu comigo, porque pensava que meu foco estava direcionado a outros dois projetos com os quais estava trabalhando.

Percepção do projeto

De vez em quando escrevia um texto e colocava na pasta Velhos. Depois de dois anos percebi, era um livro. Foi um susto! Sim, demorei dois anos para notar que estava completamente envolvida pelo tema da velhice. Que me incomodava o descaso com que muitos velhos são tratados nos dias de hoje. Falo velhos porque não comentamos que estamos ficando idosos, mas que estamos ficando velhos. Se olharmos em volta, vemos inúmeras pessoas com mais idade. Não é correto ignorá-las ou tratá-las como categoria inferior porque já não são novas. São vidas valiosas como as de um adolescente, de uma criança, de um jovem. O tema me impactou e os textos foram nascendo sem que eu planejasse.

Escrevi o Velhos bem antes da pandemia, mas agora, vivendo na pandemia do Covid 19, é triste constatar o pouco valor dado a quem tem cabelos brancos. São os descartáveis. E isso é um absurdo.

Forma e conteúdo

Escrevo textos curtos. Meu desafio sempre será contar muito, usando a menor quantidade de palavras. Não planejo com antecedência o que vou escrever. Não faço um roteiro, nenhum esquema.

Gosto de trabalhar com o sarcasmo, gosto de analisar o ser humano. Gosto de observar. Muito. Detalhadamente. Não somos só bondade, amor. Fiz questão de deixar isso bem claro no meu Velhos. Um personagem que tem oitenta anos não se torna bonzinho porque tem oitenta anos.

Trabalho bastante nos meus textos. Alguns dias fico grudada neles, numa paixão intensa. Outros dias eu os ignoro propositalmente, para depois de um tempo voltar a me encontrar com eles. Esse distanciamento facilita cortes e mudanças. Nesse vai e vem eu consigo – em algum momento – sentir que estão prontos. E quando os textos nascem é uma alegria inexplicável.

Capa do livro “Velhos”, editado pela Reformatório.

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O conteúdo de Bastidores é de uso exclusivo do site The Quarentena.

Márwio Câmara é escritor, jornalista, professor e crítico literário. Editor-chefe e idealizador do site The Quarentena.

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