Bastidores: Luiz Biajoni

Escritor de Americana revela o processo criativo durante a feitura do recém-lançado “Algum amor”

Perfil

Luiz Biajoni nasceu em Americana, em São Paulo. É escritor e jornalista. Escreveu A Comédia Mundana (2013) e A Viagem de James Amaro (2015), publicados no Brasil pela Língua Geral e em Portugal pela Chiado Editora. É autor também de Elvis & Madona (Língua Geral, 2010), Virgínia Berlim – Uma Experiência (2017) e Quatro Velhos (2019), ambos pela Penalux. Atualmente, lançou o romance Algum amor.

Um escritor roteirista

Depois de “Elvis & Madona” (2010) e de “A Comédia Mundana” (2013), eu estava me sentindo meio esvaziado, sem ideias. Me inscrevi para o curso “Story”, de Robert McKee, que a Globosat estava oferecendo para poucos felizardos, graciosamente. Fui selecionado para esse e para o outro que McKee deu, no mesmo esquema, de graça, o seminário “Genre”. Ambos foram muito importantes para mim, como storyteller. Sou narrador de histórias longas, não domino a técnica do conto ou da crônica; meu ambiente natural é o romance ou a novela. Revelações apareceram para mim com Mckee.

Durante uma das palestras de McKee, quando ele abordava o filme “Ânsia de Amar” (Nichols, 1971), tive uma ideia que me veio quase pronta – e se tornaria meu romance “A Viagem de James Amaro” (2015). Se em “A Comédia Mundana” eu reunia três histórias de crime e sexo que se passavam em uma não-nomeada cidade do interior paulista; então, em “A Viagem de James Amaro”, decidi nomear a cidade onde parte da ação se desenvolve: Americana, onde moro. Pensei que se em “A Comédia…”, as três histórias pareciam uma série, com personagens comuns interagindo nas tramas, agora eu ia escrever três histórias que se passariam em Americana, mas serviriam ao gênero antológico: alguns elementos gerariam uma ligação entre as histórias, mas os personagens não seriam os mesmos. Elegi os temas para essas três novelas que eu escreveria: a amizade, a passagem do tempo e a morte natural. Quase o contrário de “A Comédia…”, que tinha o desenrolar frenético, alucinado, cinematográfico, com sangue, sexo e perversões, essa nova “trilogia” seria de histórias de aproximações, com narrativas suaves e sobrevoantes, e alguma sensação de bem-estar – por quê não?

Literatura e jazz

Bem, para emoldurar essas novas três novelas, escolhi o jazz. Eu não conhecia muito de jazz quando comecei a escrever “A Viagem…” então fui ler e ouvir tudo o que pude, até me achar conhecedor suficiente para escrever um personagem jazzmaníaco (James). O jazz é um oceano – e eu fui entrando naquele mar e me vi envolvido com aquilo. Então “A Viagem…” saiu e eu já comecei a pensar no próximo romance e comecei a escrever “Quatro Velhos” (2018), que demorou um pouco mais que o normal para ser escrito pois fiquei doente e aconteceram coisas no meio do caminho. Os dois primeiros livros dessa trilogia me agradam profundamente – e então, eu precisava escrever o terceiro. A história já estava em minha mente e eu a planejei melhor do que qualquer outro livro: seria uma história de amor entre um jovem e uma mulher onze anos mais velha, um tema banal, já explorado, mas que tinha pequenas surpresas que eu achava interessantes e inusitadas – estava certo que iria funcionar!

Reescritura

Comecei a escrever empolgado e… veio a pandemia! No conceito inicial, a história se desenvolveria entre 1982 e 2022, mas a pandemia mudou tudo! Aqueles ex-amantes do passado não poderiam se reencontrar. E então tudo mudou: a história se modificou naturalmente, tomou outros rumos, virou uma história de afastamentos ao invés de reaproximações. O título já existia e eu o mantive, “Algum Amor”, que saiu agora pela Penalux.

A editora foi ótima, comprou a ideia rapidamente e não poupou esforços para colocar a linda edição no prelo o mais breve possível. Acho que é o primeiro romance brasileiro a ter a pandemia como pano de fundo.

Gostei bastante do resultado final do texto – que ficou um pouco caótico, como este momento histórico. O romance parece não ter o mesmo estilo dos outros dois anteriores, mas creio que pode ser enfeixado para funcionar como a trilogia inicialmente pensada.

Renovação estilística

Com este romance, fecho um ciclo – e achei que ia me ver novamente tomado por certo esvaziamento. Mas me enganei: tive uma ideia para um romance completamente diferente de todos os outros que já escrevi, um policial whodunit, que já estou terminando. Chama-se “O Crime no Edifício Giallo” – e talvez represente um novo espectro de possibilidades para mim.

Muita gente sabe que sou fã de Lou Reed. Uma coisa que gosto em Reed é que ele sempre faz um disco diferente de outro, sempre buscando direções contrárias ao disco anterior, embora todos tenham algo reediano, uma coisa que se detecta, a voz, as letras, a afinação irregular da guitarra… mas todos os discos vão para caminhos opostos do anterior. Quero fazer isso com minha literatura: quero escrever um livro diferente do anterior, indo em outra direção, oposta, mas com uma liga na linguagem que aponte para o meu trabalho de escrita.

Não é fácil, mas acho que estou conseguindo.

Capa do livro “Algum amor”, editado pela Penalux.

***

O conteúdo de Bastidores é de uso exclusivo do site The Quarentena.

Márwio Câmara é escritor, jornalista, professor e crítico literário. Editor-chefe e idealizador do site The Quarentena.

2 comentários sobre “Bastidores: Luiz Biajoni

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