[Antologia Postais]: De Mário Araújo para Sérgio L. Tavares Filho

A sétima e última parte do novo projeto, sob a curadoria do escritor Sérgio Tavares, que tem como objetivo a troca de correspondências entre escritores, cruzando o oceano

A antologia Postais traz agora uma correspondência entre os escritores Mário Araújo (China) e Sérgio L. Tavares Filho (Finlândia).

Manifestante

Sérgio L. Tavares Filho

Ele acordou no meio de uma viela onde o barulho dos carros, motocicletas e gente, gente, gente pra todo lado, era de alguma forma diferente do que ele estava acostumado. Não tinha dor de cabeça, mas parecia estar aprisionado dentro de uma capa oleosa, como se tivesse passado a tomar consciência das coisas que ninguém nota, como o cabelo ensebado, o suor nas axilas, a gordura dos prédios, o cheiro grudento do amaciante das roupas dependuradas, misturado com o calor abafado daquelas saletas, a gordura de outras cabeças, o cheiro de almoços; caseiros, mas indiferenciados. Levantou, cambaleante, ainda com a camiseta do protesto.

Cotovelos inflamados, os nós dos dedos doloridos e escoriados. Um raspão no jeans, aberto nos joelhos; os tênis estavam igualmente escoriados, como se tivesse sido arrastado por quilômetros. Tateou os bolsos; a carteira estava lá. Os óculos escuros, rachados, como se esmagados numa luta corporal intensa. O celular, apagado. Confronto com a polícia?

Uma mulher passava de bicicleta e máscara médica. Teria sido sequestrado? Guerra política, guerra ideológica, guerra cultural, guerra civil. Havia sido escancarada, e o último protesto disputava, inclusive, a existência da pandemia. Acenou por informação, e ela acelerou, assustada, gritando qualquer coisa incompreensível. A placa da viela estava escrita em mandarim. Alô? Oi? Avistou outros transeuntes. Um cachorro, outros cachorros, crianças e um feirante asiático carregando uma caixa de vegetais. Viu outro feirante com as tripas de um animal para fora, mas parecia ser um espectro: não estava lá, mas não sabia com certeza: a vertigem estava instaurada e ele sufocava.

Correu até o fim da viela, era uma feira livre, central, rua aberta de concreto, lama e fios elétricos dependurados. Carros andavam devagar pela passagem, bicicletas circulavam como num formigueiro humano. Não havia dúvida, havia sido sequestrado e deixado ali para morrer. Respiração tensa, começou a caminhar, procurava uma loja, uma placa do McDonald’s, um ponto de informação turística. Confusamente, pensou se foram as postagens na quais havia comentado extenuantemente sobre a origem do vírus, as mensagens encaminhadas a ele sobre a farsa da Organização Mundial de Saúde, ou a teoria da supernotificação de mortes no Brasil. Havia discutido aquele assuntos em toda parte. Havia repassado para os amigos do trabalho? Comentado alguma postagem no Facebook? Alguém estava escutando atrás da porta sobre as reuniões das quais passou a participar? Os manifestos que assinou? O apoio que havia dado na divulgação do que eles sabiam precisar combater com todas as forças?

Era um estranho no meio de milhares e milhares de cabeças pretas e mascaradas. Uma porta dizia TOURIST INFORMATION. Entrou por ali e a atendente soou um alarme, No mask! No mask! Um segurança com luvas tentou conduzi-lo para fora, mas ele relutou — puxou os braços, se desvencilhou como podia, cuspiu para cima, “pandemia é o caralho!”, gritou, saiu correndo pela feira inundada de papel, verduras, animais abatidos e gente, gente, gente. Comunistas! Três adolescentes vinham na direção contrária, e ele tomou o celular de uma delas, aproveitando para arrancar-lhe a máscara também. Arrancou com a mesma violência a máscara da outra, que gritava assustada, enquanto as três tentavam reaver o aparelho. Pandemia é o caralho! Correu pela feira, voltou à viela, ao prédio, invadiu os apartamentos minúsculos: uma senhora na sala passava roupa num calor infernal, a quem ele aterrorizou cuspindo-lhe no rosto: globalismo marxista! O segurança vinha no encalço, enquanto ele tentava pular da varanda. Queria ligar para casa, para o Min. das Relações Exteriores, para a Embaixada do Brasil em… Wuhan? Estava em Wuhan, afinal, concluiu tossindo, tremulando, ao ver a inscrição bilíngue no carro de polícia que chegava com as sirenes ligadas. Enquanto lutava contra os agentes, o celular emitiu um alarme sonoro, exibindo um alerta vermelho: como todos os cidadãos dali, deveria ir imediatamente para casa, e telefonar a um hospital somente em caso de necessidade de internação. Mentirosos! Comunistas! Farsa científica! Com a polícia, chegava também uma ambulância do exército. Quatro agentes com traje de proteção desciam, em movimentos lunares, como cosmonautas numa missão mortífera. Renderam o manifestante, que chamava por seu advogado. A língua incompreensível dava pouca margem de entendimento: ele se debatia, gritava, pedia por seus direitos, evocava uma Constituição pálida, distante, com os artigos derretidos já antes dele evocá-los; retiraram sua camisa verde-amarela e o vestiram no avental branco, e logo foi atado com rispidez na maca do veículo. As sirenes continuavam, saíram do bairro, os observadores mascarados deram espaço para a passagem, ele avistou o vira-lata outra vez, e trafegaram para fora do formigueiro. Sentia a temperatura baixar, vendo céu cinza e fios elétricos pelas janelas, e compassando-se com a respiração dos astronautas. Por fim, já em temperaturas abaixo de zero, um terreno de terra batida, e barracões numerosos; um hospital de campanha, cheio, organizado por outros astronautas, e uma cama separada por folhas plásticas. Notou os pés molhados da enfermeira; o silêncio relativo ainda reverberava nos ouvidos, e notava a água subir nos rodapés, como se vertesse das paredes; os gritos acalmados por um sedativo potente, vinham médicos com água na cintura, o leito se banhando de água; a luz branca sobre a cabeça foi a última coisa que viu, antes da água encobri-lo por todo, e a pata cascuda, enorme, abrindo-se em dedos cinzentos, surgisse debaixo da cama, tapasse os gritos e o levasse até a verdade que o sufocava.

*Sérgio L. Tavares Filho é mestre e doutor em Cultura Contemporânea, e consultor criativo em Cultura, Design e Tecnologia. Mora e trabalha em Helsinki. Mais trabalhos em lutav.com.

***

Antologia Postais é de uso exclusivo do site The Quarentena.

Sérgio Tavares é escritor, jornalista e crítico literário. Autor dos livros Cavala (Prêmio Sesc de Literatura 2009) e Queda da própria altura (Finalista do 1º Prêmio Brasília de Literatura).

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