Bastidores: André Timm

O escritor gaúcho revela alguns detalhes de seu recém-lançado romance “Morte Sul Peste Oeste”

Perfil

André Timm é natural de Porto Alegre e radicado em Chapecó, Santa Catarina, desde 2004. É autor de Insônia (2011) e Modos Inacabados de Morrer, romance finalista do Prêmio São Paulo e publicado na Itália. Em 2018, venceu o Prêmio Off Flip, da Festa Literária Internacional de Paraty. Em 2020, publica seu segundo romance, Morte Sul Peste Oeste.

Sobre Morte Sul Peste Oeste

Diante do terremoto que arrasou o Haiti, Dominique não vê outra alternativa a não ser converter-se em mais um dos imigrantes que, deixando mulher e filho para trás, se aventura em busca de trabalho no Brasil. Mas ao entrar no país, um incidente o obriga a mudar seus planos radicalmente, lançando-o em uma espiral de preconceito e xenofobia, cujo cenário é o universo brutal das linhas de corte dos frigoríficos no Oeste Catarinense. Brigite, por sua vez, uma menina de treze anos, transexual e aspirante a cineasta, vive uma conturbada relação com a mãe e com aqueles que fazem parte do universo que habita. Uma história que exalta os deslocados, que expõe o desconforto de não se sentir pertencente a um lugar, uma língua, um corpo.

Sobre o mapa da escrita e suas coordenadas

Primeiro vem a ideia, que fica algum tempo em estado de suspensão, invadindo outras ideias, outros pensamentos. Pode levar semanas, meses, anos. Uma vez que a ideia toma certa forma, começo a pensar em uma estrutura narrativa, isto é, um esqueleto em que cada item é uma frase que resume o que acontecerá naquele capítulo do romance. Depois desdobro isso e cada frase se torna um parágrafo que descreve melhor as ações, mais ou menos como acontece nos roteiros de cinema com aquilo que se chama escaleta. E depois é hora de escrever as cenas, de fato. E junto à escrita das cenas, pesquisas (artigos, filmes, séries, documentários) e entrevistas com pessoas que possam acrescentar à construção dos personagens ou à história. No caso de Mote Sul Peste Oeste, um haitiano e uma mulher trans. Para este livro, especificamente, a rotina de escrita se deu assim: trabalhava em uma cena bruta à noite, sem qualquer tipo de lapidação, senso crítico desligado. Na manhã seguinte, acordava 4h30 ou 5h da manhã e nas próximas duas horas retrabalhava essa cena, ai sim, deixando-a mais próxima do que seria sua versão final. Esse foi um processo que se deu ao longo do ano 2019.

Sobre os percursos e fronteiras do livro

Morte Sul Peste Oeste começou com uma imagem. Ou melhor, com uma cena. Em algum momento de um dia qualquer, me deparo com a sequência interna de um ônibus que trafega por uma estrada poeirenta. O plano de câmera é muito aberto e distante, de modo que vejo o ônibus muito pequeno. Então a câmera se aproxima uma vez e vejo mais detalhes do veículo. A câmera se aproxima mais uma vez e então visualizo um homem negro que imediatamente associo a um haitiano. Moro em Chapecó, no Oeste Catarinense, um destino muito comum a migrantes haitianos em função dos frigoríficos existentes na região. Atribuo a isso a associação. A partir daí a narrativa começou a se estruturar na minha cabeça. Logo entrou também Brigite, uma menina trans de treze anos que passa por severas dificuldades devido ao universo e às pessoas que fazem parte do seu convívio, uma personagem cujo embrião vem de um conto escrito há muitos anos, desenvolvida porém à luz de novas referências, pesquisas, estudos e entrevistas. São personagens jogados à margem em função de nossos preconceitos e intolerância. Parece que boa parte de nós perdemos nossa capacidade de empatia, de aceitar qualquer posição que não seja a nossa própria. Nos tornamos intolerante a outras crenças, outros credos, escolhas, gêneros. Estamos binários e isso é péssimo pois nos faz analisar as coisas como se só existissem duas possibilidades, enquanto que há um matiz delas. Cruzo fronteiras delicadas neste livro, visto que estou sujeito aos questionamentos de lugar de fala, com os quais não concordo quando se trata de ficção. Isso é importante ressaltar, quando se trata de ficção. A literatura é o próprio exercício da alteridade, do colocar-se no lugar do outro. Se estivéssemos autorizados somente a escrever ficção a partir do nosso lugar de fala, a literatura estaria em sério risco porque não há representatividade. Acredito que a falta dela é o que nos leva a questionamentos como o do lugar de fala na ficção. O Brasil é um país imenso, múltiplo, diverso. Carecemos de representatividade na autoria e também no mosaico de personagens que formam nossa literatura. Quero acreditar que ao trazer para a narrativa personagem que estão à margem, estou ajudando a dar um pequeno passo em direção a uma literatura mais representativa das minorias, sempre desejando que, cada vez mais, as próprias minorias tenham as condições de criar seus próprios personagens, sejam eles quais forem, e lançar seus próprios livros. Tudo isso, é claro, falando de uma perspectiva de proporcionalidade, pois exemplos isolados já acontecem.

Capa do livro “Morte Sul, Peste Oeste”, editado pela Taverna.

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O conteúdo de Bastidores é de uso exclusivo do site The Quarentena.

Márwio Câmara é escritor, jornalista, professor e crítico literário. Editor-chefe e idealizador do site The Quarentena.

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