[Antologia Postais]: De Sérgio L. Tavares Filho para Mário Araújo

A sexta parte do novo projeto, sob a curadoria do escritor Sérgio Tavares, que tem como objetivo a troca de correspondências entre escritores, cruzando o oceano

A antologia Postais traz agora uma correspondência entre os escritores Sérgio L. Tavares Filho (Finlândia) e Mário Araújo (China).

Vergonhas

Mário Araújo

De quando eu era criança, o que me lembro melhor era da vergonha. Sentia vergonha de quase tudo. De ver meu pai arrastar a mala pela rua quando chegamos de viagem e fomos a pé até o ponto do ônibus, que ficava longe da rodoviária. Do pijama de listras brancas, pretas e vermelhas que pus para dormir na casa da minha tia. De não conhecer palavras que a professora trocava com os outros alunos e as quais eu, recém-chegado, ainda não dominava. Das roupas de sair de casa, que pareciam sempre fora de moda, além de apertadas, revelando mais do que gostaria do meu corpo excessivamente magro. E para não dizer que era só o grotesco que me encabulava, eu também sentia vergonha de andar de guarda-chuva na chuva, de usar gorro de lã no frio e band-aid sobre os meus machucados.

Por isso, fiquei preocupado quando me falaram dessa nova onda de sair na rua usando máscara de médico para se proteger do vírus que anda por aí. Quando saí para ir ao mercado, levei uma no bolso, mas não usei. Fiquei olhando para as pessoas, para ver quem usava e quem não usava. Achei que a contagem estava meio a meio, e, então, por via das dúvidas, preferi ficar no grupo de quem não usava. Se todo mundo usar, talvez eu mude de ideia. Mas acho difícil que isso aconteça. Muita gente não tem máscara e outros esquecem de colocar por não estarem habituados.

Então fui à missa. Na igreja havia bem menos gente do que no mercado. Em compensação, tinha distanciamento social, com uns poucos fiéis dispersos nos bancos. Não se apertaram as mãos antes da comunhão, como de costume. Na fila, bem atrás de mim, ouvi um tossindo. Nunca fui a uma missa em que alguém não tossisse, é como se a tosse combinasse com aquele eco. Não me virei, apenas passei a mão pela nuca, discretamente, para checar se alguma substância tinha respingado. Não tinha. O padre não usava luvas e punha a hóstia direto na boca dos crentes. Fiquei meio ressabiado, mas já que tinha chegado até ali, recebi a hóstia e voltei para o meu lugar. De todo modo, é menos arriscado do que no templo evangélico, que está sempre apinhado e onde a palavra do Senhor é cuspida, espirrada com grande estardalhaço, o que só faz aumentar o perigo de contaminação.

Talvez, apesar de tudo, eu me sentisse mais seguro se usasse máscara. Algo para se pensar da próxima vez que eu sair. Acontece que eu sou muito caseiro. Mesmo quando não havia epidemia, eu quase não saía, a não ser para fazer o básico, como agora. A doença mata, e eu não quero morrer, mas o confinamento, tenho que admitir, não chega a causar grande mal para quem já vivia na solidão. Acho que até traz benefícios, pois a falta de contato com os outros humanos deixa de ser culpa sua. De repente, não sou mais um fracassado, estou apenas seguindo recomendações médicas

Se eu fosse médico, aliás, não teria vergonha, porque só usaria a máscara na sala de cirurgia e não ficaria embaraçado na frente dos colegas e das enfermeiras, todos cobertos com aquelas roupas que parecem pijamas. Se eu fosse um desses caras que operam britadeiras nas ruas, também não me acanharia, cercado de companheiros iguais a mim. E, voltando ao assunto do hospital, se eu ficasse doente e tivesse que me internar, também não me importaria de me vestir com aquela espécie de avental, amarrado na frente e aberto atrás.

Uma coisa que fiquei pensando depois que a missa acabou e eu voltei aqui para esta sala, sentindo ainda o gosto da hóstia na boca, foi que talvez eu não devesse sentir vergonha de palavras, pijamas e máscaras, mas sim dos meus pecados. Alguns são até bem graves, causaram mal a outros. Mas a verdade é que os pecados são guardados quase sempre no íntimo da gente, na alma. Não andam por aí, colados ou pendurados no nosso corpo, para todo mundo ver.

* Mário Araújo nasceu em Curitiba. Publicou dois livros de contos,“A hora extrema”, um dos ganhadores do Prêmio Jabuti, em 2006, e “Restos”. Teve contos selecionados para antologias publicadas no Brasil, Alemanha, Espanha, Finlândia e México. Recentemente, concluiu seu primeiro romance, “Breu”, a ser brevemente publicado. Diplomata de carreira, atualmente vive em Xangai.

***

Antologia Postais é de uso exclusivo do site The Quarentena.

Sérgio Tavares é escritor, jornalista e crítico literário. Autor dos livros Cavala (Prêmio Sesc de Literatura 2009) e Queda da própria altura (Finalista do 1º Prêmio Brasília de Literatura).

Um comentário sobre “[Antologia Postais]: De Sérgio L. Tavares Filho para Mário Araújo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s