[Antologia Postais]: De Marco Severo para Nara Vidal

A quinta parte do novo projeto, sob a curadoria do escritor Sérgio Tavares, que tem como objetivo a troca de correspondências entre escritores, cruzando o oceano

A antologia Postais traz agora uma correspondência entre os escritores Marco Severo (Brasil) e Nara Vidal (Inglaterra).

Carmen

Nara Vidal

– Fica, Carmen! Vai ter bolo só por sua causa, fica!

Às 7h20 da noite, Carmen queria ir para casa. Casa era a Ladeira dos Tabajaras a duas quadras da casa dos patrões, na Santa Clara. Já não aguentava mais olhar na cara da dona Rafaela, os filhos mimados que ela há mais de 20 anos fingia amar, o marido sonso, o seu Roco. Nome esquisitíssimo, mas o homem era filho de uma espanhola chamada Yolanda, vai vendo. Os patrões, que trabalhavam por conta própria numa empresa de marketing, perambulavam o dia todo debaixo do nariz de Carmen. Pediam cafezinho, pediam suco, pediam silêncio. O dia inteiro. Agora, na hora de ela se mandar, lá estavam eles querendo que ela ficasse mais uns minutos. Não ia ter como escapar: celebravam 25 anos que Carmen servia aqueles lá com toda a sua dedicação.

Por um lado, quando Maria Luiza, a do meio, insistiu que ficasse para o bolo, Carmen suspirou um alívio que não ia ter que comer alguma coisa que ela mesma tivesse feito. Pelo menos não se lembrava de ter assado bolo nenhum naquele dia. Guilherme, o mais velho que já tinha passado da hora de sair de debaixo das asas da mãe, foi na esquina buscar um bolo chique. Dona Rafaela me avisou que era um bolo de mousse de limão com ganache. Há 25 anos que ela trabalhava para os Ortega e eles nunca tinham notado que Carmen detestava tudo que fosse gosto de limão. Já estava até vendo que ia ter que comer aquilo forçada para não fazer desfeita. Morta de cansaço, queria ir embora e ia ter que fazer cara de agradecida porque estava naquele emprego há tanto tempo.

A data de aniversário do emprego quase coincidia com a data de aniversário de Carmen. Ia fazer 45 anos em duas semanas e ainda não tinha trepado na vida. Quando saía para a feira para comprar orgânico, as amigas comentavam das escapadas que davam no quartinho dos fundos com os patrões e Carmen se irritava. Passava noites em claro sem entender o que havia de errado com ela. Era gostosa, tinha todos os dentes, se perfumava diariamente na esperança de ser aquele o dia. A amiga dizia que era porque Carmen era capricórnio, ascendente em virgem, lua em câncer. Era complicada.

Quando acabou a comemoração na casa dos Ortega, Carmen foi embora. Antes, lavou os pratos e garfos do bolo que comeram. Cozinha limpa, agradeceu a gentileza e foi embora. Diariamente, Carmen fazia o mesmo trajeto para a casa. Parava num bar de miseráveis na Figueiredo de Magalhães do lado do salão de beleza, antes de atravessar a rua para subir o morro. Entrava no bar cheio de homem e pedia um cigarro. Os olhos se esticavam para ela, mas não avançavam. Ela se fazia de mole e fácil, mas nada. Talvez estivessem bêbados demais. Subia o morro bem devagar. Parava numa ponta ainda longe de casa que dava para uma encruzilhada. Ali, passavam carros diferentes todos os dias e traziam de tudo: polícia, burguês, dono de boca, o mundo! Todo mundo avisava que aquela encruzilhada era um perigo. O que já teve de crime ali não está no gibi. Para uma moça, então, pior ainda. Muito estupro, Carmen, muito, quase todo dia. Há mais de 20 anos que Carmen subia, parava, fumava um cigarro e esperava que um homem mandasse ela entrar no carro e comesse ela. Passava gente conhecida, passava gente estranha e Carmen continuava virgem. Chegava a sonhar com sensações que não conhecia.

Dona Rafaela pediu, nesse dia, que Carmen ficasse com as crianças, tão adultas quanto ela, até que voltasse para casa com Roco depois de um jantar na casa de uns clientes. O patrão pagaria um táxi ou Carmen poderia dormir no trabalho. Mas com a mãe doente terminal, Carmen não deixava a velha uma noite que fosse entregue à própria sorte.  No máximo meia-noite chegariam, assegurou seu Roco. Três e meia da manhã e bêbados chegaram os dois. Carmen numa aflição de dar dó. A mãe dela devia estar com fome, sede, precisava tomar os remédios na hora certa. Que merda! No táxi para casa, o motorista avisou que a ladeira não subia. Carmen saltou do carro e correu como se fosse tirar a mãe da forca. Coitada da dona Jandira, presa numa cama, quase sem movimento, esperando a morte chegar. Carmen precisava chegar antes. Passou a encruzilhada e, cansada, reduziu o passo. Junto com os tamancos da Carmen, um barulho de chinelo arrastando. Ela olhou para trás e não viu ninguém. Voltou a correr e os chinelos arrastados começaram a andar rápido. Quando se virou, Carmen viu um homem que nunca tinha visto antes. Assobiou para ela e a chamou de gostosa, suculenta e delícia. Carmen sentiu o sangue ferver e pela primeira vez experimentou o medo. Correu até ser capturada.

Agora, a Carmen não é mais virgem. O erro dela foi não se ter feito de difícil. Tivesse corrido antes, feito um cabrito, um lobo já tinha pegado. E olha que, naquela noite, Carmen nem estava de calça justa.

*Nara Vidal é mineira de Guarani. Formada em Letras pela UFRJ, tem um Mestrado em Artes pela London Met University. É escritora, editora da Capitolina Revista e colunista do Caderno Dois, da Tribuna de Minas. Escreve para adultos e crianças. Tem dois livros de contos e seu romance de estreia, “Sorte”, foi um dos vencedores do Prêmio Oceanos 2019. Mora na Inglaterra desde 2001.

***

Antologia Postais é de uso exclusivo do site The Quarentena.

Sérgio Tavares é escritor, jornalista e crítico literário. Autor dos livros Cavala (Prêmio Sesc de Literatura 2009) e Queda da própria altura (Finalista do 1º Prêmio Brasília de Literatura).

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