Angústia

Confira o conto inédito do escritor e crítico literário Winter Bastos

Ponho o fone no gancho.

Penso em fazer um poema com meu nome, um poema que misturasse dois pronomes (já até rimou, mas rima pobre). Eles e eu: Eliseu. Porém não existem eles: só eu estou preso aqui. E pensar que em geral era assim que eu preferia. É, gostava de ficar sozinho. Com tempo para escrever e ninguém me chateando. Mas agora não crio nada no computador. Fazer um conto? Uma crônica? Não dá. Imagino alguém me dizendo: “Mas você não está liberado no trabalho?” Como se isso fizesse alguma diferença…

Há uns dois anos também fiquei “liberado” do trabalho (mas de outra forma). E também não adiantou nada: não escrevi coisa nenhuma. Dava aula de Português Jurídico no Centro Universitário Maurício Vale, mas acabei demitido. E pensar que tinha sido para escapar do desemprego que havia largado meu curso de Sociologia e ido fazer graduação em Direito… Exatas e biológicas não eram pra mim. Falar mal do Capitalismo, ver filmes europeus, ler literatura, tudo isso era o que eu sabia fazer e nada disso me garantia sustento. Mas, em Direito, logo comecei a comentar com os colegas: “Essa graduação é um porre. Insuportável”. Porém segui o curso até o fim. Não cheguei a advogar.

Empregado como professor de Português Jurídico, me casei logo com Vitória: cerimônia civil sem festa. Caloura de Sociologia, minha mulher só estudava. Mesmo com pouca carga horária no trabalho, eu tomava Lexotan toda noite e Fluoxetina ao acordar. Os alunos se queixavam de mim na secretaria, dizendo que minhas aulas eram difíceis e inúteis. Eu explicava ao coordenador: “É porque acham minha matéria desnecessária, querem ir direto para o estudo das leis”. Ainda pensava: “Alguns alunos têm ressentimento por serem mais velhos que eu e estarem cursando  faculdade privada, enquanto eu fiz universidade pública. Têm raiva do preço alto que pagam”. Mas isso eu não dizia.

Lembro que os professores começeram uma greve para defender nossos empregos, que estavam sendo ameaçados por um “corte de custos” após a fusão com outro grupo educacional. Todo dia eu fazia piquete na porta da faculdade e não entrava para dar aula. Em casa era um inferno: “Assim você vai acabar sendo despedido, Eliseu”.

Agora caminhando pelo conjugado vazio, penso no quanto Vitória estava certa, e errada também. Perdi o emprego, mas que emprego teria naquela faculdade “reestruturada”? Assim como segui minha graduação até o fim, fiz o mesmo com o emprego, agarrado nele até ser demitido. Com o casamento foi mesma coisa. “Eliseu, é melhor a gente se separar.”

Esquento água no micro-ondas e depois misturo café solúvel. Bebo fazendo careta. Na época de casado, preparávamos café direitinho, passado no coador. Eu só fumava escondido. Lavava louça sempre usando avental para não manchar a camisa com respingos de gordura.

Depois da separação, desempregado, fui morar com minha mãe em São Pedro da Aldeia e, com o dinheiro do FGTS, me matriculei num curso preparatório para o concurso público do Tribunal de Justiça. Meu pai, nós não víamos desde os meus sete anos. Eu só tinha minha mãe com suas orações protestantes. Era o que me restou, fazer o quê? Criada numa família católica, mudou de religião após o sumiço do marido. Com isso, os outros familiares também foram deixando de visitar. E éramos filhos únicos. Tanto ela, quanto eu.

Olho para o telefone…

Ando até a janela, acendo um cigarro. Se eu fosse cego, provavelmente não fumaria. O melhor de fumar é ver a névoa se dissolvendo na nossa frente, feito mágica. Como os deficientes visuais estarão passando esse período de confinamento? O tato é a visão do cego, e agora os virologistas aconselham as pessoas a não tocarem em nada. A pandemia duplica a cegueira. Lembro dum cego que estudava Sociologia comigo e que costumava brincar: “Dizem que o bêbado vê as coisas em dobro. Quem sabe, se eu ficar bêbado, posso ver as coisas ao menos uma vez?”. A pandemia embaralha nossa visão do mundo. Não duplica nem a solidariedade, nem a ganância, mas duplica a cegueira e também o transtorno obsessivo compulsivo. Se antes lavar as mãos várias vezes era diagnosticado como TOC, hoje é aconselhado pela Medicina. Pensando bem, a ignorância também se duplica: há quem negue o perigo do vírus, mesmo vendo o cortejo de caixões na TV.

Detesto televisão. Minha mãe via canais evangélicos, enquanto eu estudava para o concurso público o dia inteiro trancado no quarto. Perdi contato com minha ex-mulher. No caminho do curso preparatório, descartei meu celular num posto de reciclagem mantido pela companhia de energia. Em troca, ganhei um desconto na nossa conta de luz daquele mês. Exercício físico eu fazia um pouco dentro do quarto mesmo, entre o estudo de uma e outra matéria. Após almoçar, tirava uma sesta de exatos 32 minutos. Depois voltava a abrir a apostila. À noite, pesadelos: minha mãe, enganchada em meu braço,  conduzindo-me por um abismo através duma ponte estreita de granito, sob uma chuva forte.

Agora também chove, como nos antigos pesadelos em São Pedro da Aldeia, mas não tão forte. Lembro que, depois da minha aprovação no concurso, continuei tendo sono ruim. Sonhava que tinha sido reprovado. Afasto-me da janela, sento-me no sofá e apago o cigarro no cinzeiro da mesinha de centro. Pego o controle remoto e, pra fazer algo diferente, resolvo ligar a televisão.

No noticiário, matéria mostra gráfico da disseminação viral no Brasil, depois número de doentes, mortalidade… Desligo a TV. No computador, acesso a página do Tribunal de Justiça. Continua lá o aviso de que o expediente forense está suspenso em virtude da pandemia de coronavírus, sem perspectiva do retorno dos funcionários. Acesso minha conta bancária pelo computador e vejo que tenho saldo. Escrevo um e-mail para meu chefe – “Felipe: Tive que me adequar a esse momento de isolamento forçado. Até passei a usar banco pela internet. Além disso, achei melhor comprar um smartphone, que foi entregue aqui. Envio o número novo para você me mandar alguma mensagem caso precise”.

Pego minha pasta de contos na estante e releio aquele que está concorrendo ao Prêmio Literário Prefeitura do Rio. Ao fim, penso que tenho chance de conseguir uma boa colocação. Escrevi o conto logo assim que comecei a trabalhar no tribunal há poucos meses. Escrevia todos os dias após o expediente. Para me inspirar, lia livros pela manhã antes de ir para o trabalho e também no ônibus e na hora do almoço.

Guardo novamente a pasta e pego meu caderno de capa dura. No sofá, tento escrever alguma coisa. Não dá.

Resolvo telefonar de novo. Ninguém atende.

Em três passos atravesso a sala e pego o esfregão no banheiro. Molho com água sanitária diluída e vou passando pelo chão. Sala, cozinha, banheiro. Penso que essa é a única vantagem de morar numa quitinete. Num instante limpo tudo.

Ando até o telefone. Teclo o número. Chama, chama, e ninguém atende.

Estalo os dedos. Ando pra lá e pra cá. Amasso a edição recente do Jornal de Literatura, que nem acabei de ler; despejo álcool em cima e começo a limpar os vidros da janela.

Volto ao telefone.

– Alô. Assim você me mata de preocupação. Por que não atendeu a ligação? Você sabe que nessa época não pode ir ao culto.

– Ah, Eliseu, pode ficar tranquilo que estou me cuidando bem aqui com a graça de Deus. E você como é que está? E o trabalho?

– Estou liberado do serviço, mãe. Para evitar espalhar o vírus. Se as pessoas não ficarem em casa vai todo mundo morrer.

– Deus me livre.

– Promete que não vai ao culto? – perguntei, sabendo que ela tem medo de mentir.

Uma pausa me fez estremecer.

– Meu filho, o pastor fechou o templo nessa época.

Suspirei e me despedi.

Acho que agora talvez dê para escrever alguma coisa.

*Winter Barros é autor do livro de contos “Prisões de Estimação” (Editora Itapuca, 2019) e do livro de crítica literária “Malandragem, Revolta e Anarquia: João Antônio, Antônio Fraga e Lima Barreto” (Ed. Achiamé, 2005). Em 2011, recebeu menção honrosa no IX Concurso Municipal de Conto – Prefeitura de Niterói, com o conto “O Anão”, posteriormente publicado pela Editora Niterói Livros com os demais premiados. Obteve menção honrosa no 7º Prêmio UFF de Literatura, em 2013, com a obra “(Des)encontro”, incluída em antologia da EdUFF. No Festival de Contos do Centro Literário e Artístico da Região Oceânica de Niterói, obteve 1º lugar (em 2016) e 2º lugar (2017). Recebeu 10º lugar no Concurso Bram Stoker de Contos em 2018. Teve o conto “Depoimento” selecionado pelo Selo Off Flip para integrar a coletânea “Parem as Máquinas!”. Fundador do blogue Expressão Liberta (http://expressaoliberta.blogspot.com/). Colaborador com textos para o jornal Transversus e para a revista Contra Legem. Redator do fanzine O Berro (oberrofanzine@gmail.com) desde 2008. Escreve para o fanzine Alfarrábios, publicado pelo Armazém de Quinquilharias e Utopias, coordenado por Paulo de Carvalho.

2 comentários sobre “Angústia

  1. Um belo conto Winter! Um retrato perfeito de como a Pandemia e seu decreto de solidão nos atinge! Ainda bem que não foi capaz de cortar a sua criatividade! Ela, expressada em textos como este, é o melhor remédio para as “Angústias” dos seus leitores. Parabéns!!!!

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