A evolução da crítica literária – parte 3

Os percalços encontrados no trabalho dos críticos literários

Guilherme Mapelli Venturi

O conhecimento também se manifesta por meio da arte, a qual envolve duas vertentes: a primeira, chamada de factual, refere-se ao próprio ato de fazer a obra de arte, ou seja, à criação; ao passo que, a segunda, denominada de intelectual, diz respeito à explicação e à interpretação da obra, englobando a crítica. (MOISÉS, 2012, p. 698).

Se a obra abarca o intelecto, também o faz com a psique, ou seja, são incorporados conteúdos conceituais, afetivos, sensoriais, imaginativos, entre outros; configurando a crítica como uma atividade ambivalente, equívoca. Isso por decorrência de alguns fatores, sendo o primeiro, o fato de que “é também a criação de uma obra – o artigo, o ensaio, […] – que, por meio da análise, interpretação e julgamento, prolonga e completa a obra criticada”. (MOISÉS, 2012, p. 698). Por essa razão é que se tece a seguinte premissa, segundo Moisés (2012, p. 698):

o crítico cria uma obra dependente da outra, na medida em que não existiria sem ela, mas uma obra autônoma como organismo que deve bastar-se a si próprio, sujeito a “leis” específicas, diversas das que regem a obra de arte. A crítica é também arte, visto pressupor dados subjetivos e imaginativos; e o crítico, da mesma forma que o artista, constrói uma obra, embora de outra qualidade e de outra contextura. De onde sua linguagem se impregnar de ambiguidade e suas avaliações, ainda que brilhantes, serem pessoais e discutíveis, como tudo que se relaciona com o gosto e a imaginação.

Como se observa não só na crítica, mas também, em todas as demais artes, afinal, são todas intertextuais e plurissignificativas, em maior ou menor grau de nitidez, há referências de outros conhecimentos, ciências, disciplinas, etc., como afirma Moisés (2012), ao dizer “[…] elementos que lhe são originariamente estranhos (vindos da Psicologia, Economia, Sociologia, História, Medicina, Teologia, etc.)”. Assim, “tal circunstância impede a crítica de ser única, pela impossibilidade de reduzir à unidade todos esses elementos de vária origem”, o que leva à conclusão da “impossibilidade de enfeixar todos os aspectos contrastantes presentes na obra literária. Daí o seu caráter multiforme”. (MOISÉS, 2012, p. 698).

A crítica, por ter de escolher “um caminho de acesso ao interior da obra” apresenta muitos equívocos e discussões, representando uma verossimilhança que, conforme da obra nos aproximamos, mais da realidade nos afastamos. (MOISÉS, 2012, p. 698).

Em outras palavras, a crítica não esgota jamais a sondagem do seu objeto, pois haverá sempre um ângulo nele, ou na mente do crítico, merecedor de consideração e exegese. A crítica corresponde a um esforço contínuo, progressivo, no rumo de uma verdade praticamente inalcançável, pela razão mesma de se tratar de arte, com todo o seu cotejo de ambiguidades e relativismos. (MOISÉS, 2012, p. 698)

Outro ponto relativo à crítica é o que se refere ao gosto pessoal, o qual, segundo Moisés (2012, p. 690), é impossível dele ausentar-se, afinal, “o critério do gosto ou não gosto, repugna à unanimidade dos críticos lúcidos, mas nenhum deles foge de empregá-lo, ao menos em companhia de outros processos”. Portanto, antes mesmo de se adentrar o conceito, a lógica e a ideologia de qualquer método crítico, se está utilizando do “gosto ou não gosto”. (MOISÉS, 2012, p. 290).

Tais posicionamentos nos leva a creditar toda ou grande concordância aos dizeres de Moisés (2012. p. 690), “por mais empenho que ponham alguns críticos na defesa da crítica científica e objetiva, ela sempre será insubordinável aos seus métodos, ou estes conterão uma dose de empobrecimento do significado múltiplo dos conteúdos estéticos”.

Contudo, apesar e independente dos vários métodos disponíveis, a crítica literária apresenta outro viés que, por meio de técnicas ou requisitos indispensáveis ao exame do texto, e não de métodos, são utilizadas antes da crítica em si, para auxiliar o trabalho preparatório da crítica, ou seja, da exploração do texto. (MOISÉS, 2012, p. 699). Dentre essas técnicas estão, por exemplo: “a estatística, a semântica, a gramática, simples e comparada, etc”. Assim, “erigir uma daquelas técnicas em método crítico significa falta de lucidez ou de talento para o trabalho crítico: em ambos os casos, o resultado obtido será sempre subsidiário e preparatório, quando não mecânico e frio”. (MOISÉS, 2012, p. 700).

Por essa razão, no discurso de Moisés (2012, p. 701), “cada arremetida (de uma geração, um grupo de críticos ou mesmo de um só crítico) gera um fruto provisório, que pode converter-se num dogma de fé”, ou seja, “trata-se de uma hipótese de trabalho que a geração seguinte negará ou substituirá por outro código, que por sua vez será testado no confronto com os textos, negado e substituído, e assim por diante, num permanente jogo dialético de tese e antítese”.

Segundo Moisés (2012), há questões inteiramente teóricas e há outras que se referem ao fazer crítico, as quais não são previstas pela teoria, contudo, é de primordial importância se ter alguns cuidados: o primeiro é saber que teoria e prática não são atividades separadas, no entanto, não se deve confundi-las. Para isso, ele nos alerta para que saibamos onde termina a crítica e onde se inicia a prática, com o seguinte exemplo:

[…] quando o problema posto é de ordem teórica (por exemplo: qual a função da crítica em face da Estética e da Ética?), ou prática (por exemplo: como criticar o tempo na obra de Machado de Assis?). No primeiro caso, faz-se abstração das obras, embora o trabalho crítico lhes seja posterior; no outro, as obras é que interessam, a despeito de o seu enfoque depender de uma teoria (MOISÉS, 2012, p. 702).

São essas premissas que fazem Moisés (2012) defender a tese de que a prática da atividade de criticar, concomitantemente, exige as conceituações teóricas e oferece material para se refletir e verificar as doutrinas em causa. Consequentemente, pelo fato de não haver inteira e eficaz coerência entre teoria e prática crítica, pode haver também, rupturas entre teoria literária e a prática crítica ou analítica. No entanto, não significa dizer que esses fatores, ou seja, o que foge à teorização, a invalidará.

E mais ainda, muitas vezes a crítica é confundida com a interpretação, as quais de fato, estão interligadas, no entanto, há duas principais diferenciações: a crítica exige veiculação em espaço concreto e um público leitor. (DURÃO, 2016). Ou seja:

Aquilo que seria uma interpretação em uma prova de literatura pode tornar-se crítica se publicada no jornal da escola, quando então será objeto de discussão por parte de alunos, pais e professores. É fundamental para a noção de crítica que ela mesma possa ser criticada. (DURÃO, 2016, p. 11)

Se ela envolve o leitor, engloba, também e consequentemente, a sociedade, que nas palavras de Durão (2016, p. 11 – grifo do autor), “a crítica literária não existe sem uma função social, por mais indireta que ela possa ser”. E, portanto, “soará sem dúvida estranho que uma escrita focada em objetos aparentemente tão distantes do cotidiano de tantas pessoas

– como são romances, poemas e textos teatrais – tenha alguma espécie de influência para

além de seu âmbito restrito” (DURÃO, 2016, p. 11). Contudo, nem sempre fora assim, conforme nos mostra o excerto a seguir:

No Brasil do século XIX e da primeira metade do século XX, ela foi fundamental para o projeto de construção da identidade nacional. Por meio da crítica, manifestações literárias tão díspares quanto o indianismo e a Semana de Arte Moderna passaram a contribuir para a representação daquilo que seria, para o bem ou para o mal, a essência da nação.

Desse raciocínio, advêm dois elementos dos quais o crítico lida a todo instante: “o uso da razão e a inescapabilidade do valor”. Isso quer dizer que a análise crítica deve ser sem interesse, ou seja, deve-se avaliar apenas a obra, distanciando-se do autor, público e/ou potencial comercial. (DURÃO, 2016, p. 14)

Quando, na crítica, recusa-se a defender um valor, se está caindo em uma falácia, pois a ausência inerente a essa negação, já é a defesa de um valor. Nesse sentido, os valores convencionados nos parecem naturais e transparentes, ou seja, nos fazem abrir mão de nossos valores pessoais, os quais sempre são passíveis de erro. (DURÃO, 2016). Assim:

Isso fica mais claramente em jogo quando se está lidando com a literatura contemporânea, que não traz atrás de si uma longa tradição de leituras sedimentadas e exige um posicionamento mais contundente e urgente do crítico; no entanto, mesmo em relação aos chamados “clássicos”, não há escrita crítica sem a articulação de valores. (DURÃO, 2016, p. 15)

O público da crítica é, em geral, os autores de renome, os quais também não estão isentos de serem esquecidos, ou seja, segundo Durão (2016, p. 16), “quando a crítica não consegue mais apontar para algo de verdadeiramente novo e interessante em determinado autor, não importa o quão famoso seja, ele morre como objeto literário digno de nota”. Por essa razão é que a crítica deve mostrar que a obra ainda tem condições não só de ainda dizer algo ao nosso presente, mas também, de trazer surpresas. (DURÃO, 2016). E mais:

Ainda que a erudição e o conhecimento técnico sejam fundamentais para a crítica, sem uma imaginação formuladora de hipóteses, advinda de uma experiência estética da obra em questão, ela simplesmente não acontece. Isso é importante, assim como a interpretação em seu sentido enfático, a boa crítica não é meramente descritiva. (DURÃO, 2016, p. 19 – grifo do autor)

Para que se atinjam os resultados pretendidos pela premissa anterior, é necessário utilizar-se de algo, mais especificamente, um objeto, o qual Durão (2016, p. 21) denomina de leitura cerrada, ou seja, “um tipo de atenção extrema ao texto, que procura alcançar o maior

grau possível de proximidade e familiaridade com ele”. Nesse modo de leitura, o “como” é muito mais a ênfase do que a preocupação com “o que”, pois, “[…] todo e qualquer elemento textual pode significar e ser decisivo, desde o componente mais ínfimo, como uma vírgula em um poema, até aquilo que poderia parecer um dado desgastado ou estereotipado […]”.

Tendo em vista os dias atuais, juntamente com as transformações da sociedade e das ciências, a crítica literária encontra-se inserida em um cenário tecnológico, além de ter alterada, sua metodologia prática de análise, conforme nos mostra Durão (2016, p. 94), “[…] Com efeito, desde a metade do século XX, ela tem se tornado cada vez mais tecnologizada […]”, isso porque “a ferramenta fundamental de qualquer tipo de reflexão, incluindo a crítica, é o conceito”. Portanto, “Sem ele, é obviamente impossível pensar e fazer sentido de qualquer objeto, dentre eles, textos”. (DURÃO, 2016, p. 94). Contudo, há algumas observações a ser pontuadas, sobretudo, a fim de maior clareza. Ei-las, então:

No entanto, a tecnologização da crítica ocorre quando os conceitos perdem o seu caráter mais ou menos transparente, quando deixam o âmbito da linguagem comum (leitura, personagem, tempo, espaço, narrador, gênero, romantismo etc.), para adquirirem sentidos cada vez mais específicos, depurados de ambiguidades, por um lado, ou, por outro, se articulam em conjuntos inter-relacionados, com a aparência  de sistema. (DURÃO, 2016, p. 94)

Quanto à metodologia prática de análise, a mudança ocorreu no sentido de que, antes os estudos literários eram realizados comparando-se umas obras as outras; ao passo que, hoje, é mais comum às diferentes obras, relacioná-las às mais variadas espécies e origens de teorias. (DURÃO, 2016).

Consequentemente, de acordo com Durão (2016), para que a crítica seja boa, é necessário que ela seja eficaz em uma ou mais das teorias, as quais devem fazer com que o texto seja inteligível. Nesse sentido, ele nos alerta o seguinte: “Vale notar que a própria literatura responde a esse estado de coisas, seja incorporando a elaboração conceitual, fazendo da teoria um material ficcional (o que é positivo), seja adequando-se de antemão às preocupações de uma corrente crítica (o que não é)”. (DURÃO, 2016, p. 95).

Em outras palavras, de acordo com Durão (2016), no primeiro caso, pelo fato de a crítica literária ser, em grande parte, teórica, a literatura tenta confrontá-la com suas próprias conceituações, o que em primeiro momento, teria a função de interpretá-la; já no segundo caso, a literatura, na esperança de aceitação e sucesso, funde-se à crítica.

REFERÊNCIAS

DURÃO, Fabio Akcelrud. O que é crítica literária?. 1. ed. São Paulo: Nankin Editorial, Parábola Editorial, 2016.

MOISÉS, Massaud. A criação literária: prosa e poesia. ed. rev. e atual. São Paulo: Cultrix, 2012.

*Guilherme Mapelli Venturi é formado em Letras (Moura Lacerda), com pós-graduação em Português: Língua e Literatura, pela Universidade Metodista de São Paulo. Atualmente, faz graduação em Biblioteconomia e Ciência da Informação na USP. É escritor e crítico literário.

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