Sobre como me perco em meus mundos imaginários

A escritora Maya Falks revela a mística de seu processo criativo

Maya Falks em sua coluna: “meu processo criativo começa quando desapareço”.

Adoro responder perguntas. Sério mesmo, talvez eu tenha nascido para ser celebridade porque me empolgo sempre que me convidam para entrevistas. Só tem aquela perguntinha que me fazem da qual eu sempre me vejo meio sem saída. Como explicar a imensidão, o vazio, a ausência, o transbordamento? Existe explicação para a explosão no peito, para aquela vontade insuportável de arrancar a pele para deixar os sentimentos escaparem como brisa?

Escrever, mais do que juntar palavras em um papel ou narrar histórias, é transcender os limites do corpo. Me fiz larga para ver se cabia em mim, e não cabia, então me fiz artista. Eu precisava que meu espaço fosse imenso, muito maior do que a física me permite. Ou a biologia, ou qualquer ciência, com um mínimo de respeito. Eu queria me fazer gigante.

E aí vem isso: “como é seu processo criativo?”. A resposta que me parece mais honesta é “não sei”, mas mesmo honesta, não é justa. Não é justo que esperem de mim, sei lá, um cronograma de atividades, quando o que eu tenho a oferecer é o caos, e respondo simplesmente que eu não sei.

Saber eu sei, só não é organizado o bastante para caber numa resposta que não me renda uma internação psiquiátrica, porque nem tudo é obrigado a fazer sentido, mas nesse mundo tão cheio de rótulos, se não faz sentido, é louco. Ok, louca é um adjetivo que já ouvi muito nessa vida. Virou até motivo de orgulho. Cruz credo ser normal onde normalizam a barbárie. Prefiro ser a menina que chora com a propaganda sobre amizade. Caso real, 1998, 30 segundos na TV, 10 minutos de pranto, toda vez.

Então, vamos tentar: meu processo criativo começa quando desapareço.

Viram? Coisa de doido mesmo, mas é a forma mais fácil de descrever isso tudo. Eu desapareço. Em meu lugar, surge alguém. Eu nunca sei quem, não posso prever, são os personagens que decidem sozinhos. Então vem outro alguém. Vem a história. Não é incomum que o alguém que veio desiste e vai embora sem terminar a bagaça. Acho um desaforo.

Outros me sugam até que eu vire uma capa de couro sobre um esqueleto (e uma boa manta de gordura no caminho).

Tá vendo? Se você procurava uma resposta simples, ou no mínimo com alguma organização, sinto muito. Até tenho lá minha disciplina de pegar o caderno, a caneta e me permitir embarcar na minha imaginação, mas em geral minha mente está em constante ebulição. Quando me preparo para criar uma ideia ordenadamente, elas riem da minha cara, só falta dizer: “ô coitada, acha que manda”. Não mando em nada. Meu corpo é, para minhas histórias, o que o papel e a caneta são para mim: instrumento.

Não que eu não tenha importância em meu processo, afinal, as histórias não surgiriam sozinhas, sem meu acervo pessoal, mas são elas que importam. O mesmo vale para meus livros; por mais que eu seja a única possível a falar por eles, já que eles não têm uma vida orgânica, ainda assim são eles que importam, é por eles que eu luto, é por eles que me desdobro, me faço em 10, em 1000, em quantas precisar para que eles cheguem longe e tenham vida longa.

Trocando em miúdos, meu processo criativo é basicamente meu ato de permitir que eles, os personagens, façam de mim o que quiserem. E assim, eles nascem livres.

Maya Falks nasceu Márcia, no dia mais frio de 1982. Começou a criar histórias aos 3 anos, ditando as narrativas à mãe. Escreveu seu primeiro romance aos 7 anos, o segundo aos 10 e a primeira antologia poética aos 14, nenhum deles publicados. Atualmente Maya é publicitária, jornalista, estudante de letras e autora dos livros “Depois de Tudo”, “Versos e Outras Insanidades”, “Histórias de Minha Morte” e “Poemas para ler no front”. Para 2020 está previsto o lançamento de “Santuário” (Editora Macabéa).

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