[Antologia Postais]: De Andréa Zamorano para Marco Severo

A quarta parte do novo projeto, sob a curadoria do escritor Sérgio Tavares, que tem como objetivo a troca de correspondências entre escritores, cruzando o oceano

A antologia Postais traz agora uma correspondência entre os escritores Andréa Zamorano (Portugal) e Marco Severo (Brasil).

Respirar

Marco Severo

Meu pai não conseguia juntar dinheiro nunca, e o pouco que conseguia guardar, entregando para minha mãe com o recado que era quase uma súplica –  Esconda bem longe de mim! – , jamais seria suficiente para que ele realizasse um desejo antigo: trocar a Kombi por um micro-ônibus.

Há anos ele trabalhava levando e buscando as crianças da periferia onde morávamos para escolas particulares nas redondezas, que os pais que podiam pagavam com sacrifício na tentativa de dar uma educação um pouco melhor para seus filhos ou, na maioria das vezes, procurando vê-los longe das drogas. Tanto uma quanto outra eram uma ilusão, mas há legitimidade inclusive nela, nem que seja para não sucumbir à precariedade das formas de vida ao redor.

Eu ia para a escola a pé. As coisas haviam ficado piores de um ano para o outro e meu pai conversou comigo e disse que eu ia precisar voltar a estudar na escola da frente de casa. Eu disse que entendia, quando na verdade queria dizer que aceitava, porque desse assunto sempre ficava em mim muito pouco. Só quando ele se afastou de mim depois do abraço foi que eu entendi o sofrimento que carregava dentro de si.

Depois de meses papai voltou a ser de uma alegria exaltada: havia conseguido um financiamento. Finalmente o tão sonhado micro-ônibus. Assim, poderia também levar bandas para fazer shows em cidades vizinhas nos finais de semana e com isso ganhar um extra. Estava tão confiante que já havia me matriculado novamente numa escola particular. Era tão bom vê-lo sorrir novamente diante do futuro. Meu pai gostava da vida pelas coisas que ainda não tinham sido feitas, antevia a possibilidade da alegria e já passava a vivê-la.

Primeiro deixávamos em casa todos os alunos que ele pegava em diferentes escolas para só então retornarmos e almoçar. Mas foi na ida, quando ainda estávamos inebriados pelos dias de felicidade recém-conquistada, que meu pai desviou-se de um carro na contramão e deu de cara com um caminhão em ziguezague tentando se desvencilhar da loucura que acontecia em cima de um viaduto. Se é que meu pai teve a chance de pensar em algo, imaginou que morreríamos na explosão entre o micro-ônibus dele e o choque na massa de ferro e combustível que o caminhão levava como carga. Ato contínuo, nos chocamos na mureta lateral, que não resistiu ao impacto. Despencamos todos na avenida que passava embaixo.

Enquanto a notícia percorria o bairro, catorze famílias já choravam seus mortos. Meu pai quebrou uma costela e um braço, e eu quebrei um pé. E foi outro pé que ficou por cima do meu corpo e, no retorcido de ferros e assentos, fez com que demorassem para que eu e ele fôssemos levados ao hospital. Como o menino estava vivo e consciente, não poderiam simplesmente cortá-lo.

Eu morri porque meu corpo mirrado não aguentou tanto peso sobre mim. Meu pai sobreviveu. Foi julgado mas não o condenaram, a juíza achou que ele ter perdido sua única filha já era punição suficiente.

Preso no túnel do seu silêncio, passou a usar um pé de madeira pequeno como amuleto. Ele soubera que fora por causa de um pé que eu não me salvara – justamente o que havia se partido em mim. Para onde ia, levava consigo não uma foto ou objeto meu, mas o pé, dizendo acreditar piamente que a filha dele que se fora por causa de um pé voltaria andando para a casa. Minha mãe foi embora, não aguentava mais ouvi-lo falar Quando a Tânia voltar…  À noite, os vizinhos ouviam-no gritar e se lamentar. Aos poucos, inclinando-se para dentro de sua loucura, a vizinhança, com medo e alguma sede de vingança, mandou fazer um enorme pé de cimento e gesso e o colocaram primeiro diante de sua janela; depois, na porta da frente, de modo a que ele nunca mais saísse. Os sons guturais noturnos cessaram. Quando arrombaram a porta, dias depois, não havia ninguém dentro da casa.

Até hoje circula a lenda de um homem que caminha pelas ruas do bairro chacoalhando uma pulseira repleta de minúsculos pés, chorando madrugada adentro e pedindo que tragam sua filhinha de volta.

*Marco Severo é professor formado em Letras/Inglês pela Universidade Federal do Ceará. Tem contos publicados no Brasil e no exterior. Colabora com diversos sites voltados para literatura. É também professor e orientador de alunos de Escrita Criativa. Publicou os livros de crônicas “Os escritores que eu matei” (2015) e “Coisas que acontecem se você estiver vivo (2018), e os livros de contos “Todo naufrágio é também um lugar de chegada” (2016), “Cada forma de ausência é o retrato de uma solidão” (2017) e “Se eu te amasse, estas são as coisas que eu te diria” (2019). Em 2020, publica sua primeira novela, “Um dos nomes inventados para o amor”, pela editora Moinhos. Pode ser contatado através do seu site: http://www.marcosevero.com.br

***

Antologia Postais é de uso exclusivo do site The Quarentena.

Sérgio Tavares é escritor, jornalista e crítico literário. Autor dos livros Cavala (Prêmio Sesc de Literatura 2009) e Queda da própria altura (Finalista do 1º Prêmio Brasília de Literatura).

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