[Antologia Postais]: De Carla Bessa para Andréa Zamorano

A terceira parte do novo projeto, sob a curadoria do escritor Sérgio Tavares, que tem como objetivo a troca de correspondências entre escritores, cruzando o oceano

A antologia Postais traz agora uma correspondência entre as escritoras Carla Bessa (Alemanha) e Andréa Zamorano.

O morto inepto

Andréa Zamorano

Nem éramos para dizer nada, mas a bem do rigor, pois em dias que correm o que não faltam por aí são verdades sem fatos, a confusão toda começou com o Steini.

No dia do sepultamento, chegou todo engalanado, mal ligou para nós que assistíamos à distância a parentada e os funcionários… deve ter sido dos enterros mais concorrido que temos lembrança. Parava um carrão, alguém abria a porta e, de lá de dentro, uma pessoa envergando luto se juntava ao exército de Lagerfelds. Ostentavam todos o mais vasto catálogo de óculos escuros de grife, uns maiores do que os outros. Talvez julgassem ser tamanho um indicador.

Steini trajava um figurino vistoso adequado à solenidade, sequer nos deu confiança, sentia-se superior por cada lágrima derrubada em sua honra. O rebuliço da cerimônia se estendeu por várias noites, estávamos habituados a mortos célebres, porém nenhum da tal monta. Não houve tumba capaz de repousar no campo-santo nos dias seguintes. Muito explicou ele sobre a sua importância, a função de cada conviva presente e sobre as relações hierárquicas e de poder no seu mundo. Pobre Steini, gabou-se por dias, sorrimos condescendentes. Tentamos lhe explicar que, dali em diante, ele não se conduziria mais pelas regras dos vivos, que é como quem diz, pelo o que cada um tem.

A revelação perturbou bastante o recém-falecido que passou a zanzar pelo cemitério em busca de algo em que pudesse materializar uma propriedade. Steini não era capaz de entender aquele niilismo todo, o fato de não precisarmos mais nem de morais e, sobretudo, de objetos. Ofendido, abandonava a entrada do seu excessivo mausoléu, acusando-nos de anarquistas.

Tal qual alma penada, ele vagou tanto que encontrou o que procurava. Uma estrutura híbrida de cabide com estante — vale ressaltar que a sua percepção começava a se afetar pela convivência com tantos defuntos — de onde surgiam regadores verdes, alguns azuis, outros amarelinhos e um cor-de-rosa. Julgou que se apenas um deles, só um, pudesse ser seu, seria considerado uma espécie de rei entre os mortos. O rei de regador não era grande coisa, sabíamos, Steini não. E lá foi para o seu jazigo, esculpido em mármore de Estremoz, com a peça de plástico que passou a ornamentar a entrada simbolizando a sua conquista.

Para azar de Steini ou nosso divertimento, o seu sepulcro ficava justo ao lado da campa da Bjork. Não a cantora, que ainda há de demorar a chegar. A nossa Bjork era uma candura de moça, mudou-se para aqui bem antes de nós e continuava a ser a sensação do cemitério.

Não há feriado santo, desde a Páscoa ao Natal, em que os seus filhos não estejam presentes, uma vez inclusive vieram de trenó no dia de São Estevão. A família não falha. Chegam cedinho, recolhem o que necessitam e, munidos de pá de neve ou vassoura, limpam tudo, arrancam as flores secas e o matinho que cresce nas frestas tumulares. Não descuram as letras gravadas na pedra com as últimas palavras dedicadas à mãe. Uma beleza, dá gosto ver uns entes assim.

No afã das limpezas, um dos filhos de Bjork alçou mão no regador de plástico — já com um imponente S T E I N I pintado em branco na lateral — e serviu-se do utensílio, dando-lhe o devido uso. Encheu-o até a borda com água e lavou a campa da mãe enquanto lhe narrava as peripécias do neto mais novo que Bjork não conheceu. Quando terminou, dirigiu-se ao “cabide-estante” onde ficavam os regadores e pendurou-o com total platitude.

Foi então que a picuinha de Steini escalou. Convulsionou todos os finados para descobrir porque tiveram o desplante de não limpar a sua entrada coberta por ervas e flores que nascem sem permissão nem planeamento e qual incompetente tivera a desfaçatez de recolocar a sua coroa – diga-se, regador – misturada com as outras. Como é óbvio, os mortos entreolharam-se boquiabertos e tiveram um ataque de riso. Foram várias as piadas politicamente incorretas, no limiar do insulto, com o rei sem coroa e sem regador. Humilhado, Steini recolheu-se ao seu túmulo.

Ainda naquela madrugada foi a um cova aberta, prontinha para receber um novo membro societário na manhã que se seguiria, e colocou lá dentro todos os regadores que estavam pendurados, à excepção do seu que foi outra vez parar na soleira da porta. O que causou um grande transtorno, não a nós, mas aos coveiros que ficaram sem compreender o sucedido.

E de cada vez que uma campa era aberta, amanhecia repleta de regadores até ao topo. Os episódios foram galgando para outros materiais de limpeza e as covas se enchendo de vassouras, pás, baldes e regadores. Sucedeu tantas vezes que a administração do cemitério cogitou a possibilidade de instalar uma vídeo-vigilância, depois desconsideraram por entenderem que o mais provável era não quererem a reposta. A ignorância dava um certo elã e um cemitério sem história de horror não se preza.

No entanto, ante às contínuas queixas de várias famílias que não encontravam os utensílios de limpeza para zelar pelos seus, obrigando os funcionários às explicações mais inusitadas. A administração resolveu adotar um método anti-fantasmagórico simples, contudo eficaz. Os equipamentos de limpeza passaram a estar atados às estruturas por cadeados de bicicleta, evitando o desaparecimento noturno.

Steini ainda hoje espera ansioso pelo momento em que alguém abrirá o código, libertando o regador para que ele o possa recolocar no lugar que acredita ser o seu de direito. Nós? Continuamos os comentários jocosos sobro o nosso colega inepto para a morte.

*Andréa Zamorano nasceu no Rio de Janeiro e vive há quase 30 anos em Portugal. “A Casa das Rosas”, seu romance de estreia, foi publicado naquele país em 2015, e ganhou o Prémio Livro do Ano da revista TimeOut Lisboa. O romance foi publicado no Brasil pela Tinta Negra Editorial. Além de escritora, a autora é dona do restaurante Café do Rio, em Lisboa. Participa ainda do projeto coletivo Let’s Play a Song: https://youtu.be/7ek8Ac30XDw

***

Antologia Postais é de uso exclusivo do site The Quarentena.

Sérgio Tavares é escritor, jornalista e crítico literário. Autor dos livros Cavala (Prêmio Sesc de Literatura 2009) e Queda da própria altura (Finalista do 1º Prêmio Brasília de Literatura).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s