[Antologia Postais]: De Mariana Travacio para Carla Bessa

A segunda parte do novo projeto, sob a curadoria do escritor Sérgio Tavares, que tem como objetivo a troca de correspondências entre escritores, cruzando o oceano

A antologia Postais traz agora uma correspondência entre as escritoras Mariana Travacio (Argentina) e Carla Bessa (Alemanha).

A primeira bicicleta

Carla Bessa

Não é perigoso. Ou você passa por cima ou por baixo, simples assim. Denilson aperta os olhinhos, desconfiado, nunca gostei desse troço de simples assim. Então por que você não entra?, ele rebate. Tentativa inútil de desafiar o outro, que só ri aberto, tô gripado, tu sabe. Denilson, a testa franzida, confunde a brancura dos dentes com sinceridade. Se num tivesse doente, tu entrava? Claro, mané! Coça o rosto todo, nervoso, os dedos se melam no suor da ponta do nariz, sal e areia agora espalhados sobre lábios testa cabelos. Tu é medroso, cara, pô mó maricas. Num é medo, é frio é tontura fumei demais. O outro gargalha e tem uma crise de tosse. Eu também.

Denilson olha novamente para o mar. Ou você passa por cima ou por baixo.

Num sô medroso. Ele cospe na areia sai andando devagar se aproxima da água entra no mar. Pouca gente na praia. Só umas famílias mais pro lado do canal. Atrás deles a bandeira grande e vermelha grita ao vento: dangerous corrents no swimming. Está rasgada. Denilson pensa na mãe, no vestido puído de sair aos domingos. Ela já deve estar na cozinha uma hora dessas. O remorso sobe com o frio pelas pernas, ele fecha os olhos e mija.

Quando os abre, a onda é uma parede na sua frente. A água, que até agorinha batia no short, corre pros joelhos e corre pras canelas e já dá pra ver os pés. Estranho, por que a água foge? Esse detalhe o outro esqueceu de dizer, a corrente de retorno. Pois é, sempre tem um detalhe que fica de fora do simples assim. Denilson tenta voltar mas o corpo não obedece, engraçado. Quando tenta ir para trás é puxado para frente. Por baixo não vai dar, não tem fundura. Por cima tá alto demais.

*

Dona Cilene põe o pó no filtro de pano novo, seis colheres, gosto de café e não de chafé! Cantarola baixinho uma música lá do tempo dela, uma coisa com moços pobres moços. O filtro e a água ficam marrom. A janela no quarto do filho bate, uma rajada de vento. Ela deita a chaleira com a água fervendo na pia e a caminho para fechá-la se pergunta, por que essa mania de não fechar janela?! Lá, a cortina responde com um puxão para fora, a corrente de ar. O danado saiu escondido outra vez!

Acontecia com frequência, já estava acostumada. Mas dessa vez, não sei me deu um aperto no peito, uma premonição. Dona Cilene se benze. Apaga o gás, deixa a cafeteira pela metade. Um nó na garganta. Senta, levanta. Põe o chinelo, uma gotinha de cheiro no pulso e, vou até lá na praia pegar aquele demônio. O vento levanta o vestido que se debate entre as pernas, gritando: vai chover. Ela olha para o céu, mas quase não tem nuvem. Se benze de novo. Hoje eu arranco a tua orelha!

*

O mar é uma boca gigante que engole e só então mastiga. Traz um bafo de alga, misturado com café fresco e o perfume agridoce Maçã do amor. Presente dele para ela no dia das mães. Ficou toda alegre, mó orgulho dessa peste. Era tão fácil amansar a velha. Ele ri, traquinas, e os dentes encontram o joelho, como assim? Uma torção no quadril, algo arranha a barriga, o braço se confunde com o aceno, o cabelo longo oxigenado lambe um olho depois o outro. E de repente o céu está cheio de conchas, ele pisa nas nuvens.

Primeiro, silêncio. Depois, o ruído surdo de coisas batendo, seriam asas?, a fala abafada do amigo ecoando na sua cabeça, ou você passa por cima ou por baixo, simples assim, assim, sim, sim… Vozes como que dentro de um cano, assobios e gritos de gaivotas, sua primeira bicicleta passando, agora sem dono, as rodinhas de apoio boiando soltas ao seu lado e Dona Cilene se erguendo do mar igual a imagem de Iemanjá que fica em cima da geladeira.

Então, uma mão enorme o puxa para o alto pela orelha.

*Carla Bessa vive em Berlim e é tradutora literária alemão-português do Brasil. Traduz autores renomados da literatura contemporânea alemã para as editoras WMF Martins Fontes e Estação Liberdade, ambas de São Paulo. Foi condecorada com várias bolsas de tradução e residências literárias na Europa. Estreou como escritora, em 2017, com o livro de contos Aí eu fiquei sem esse filho (Oito e meio), e tem contos publicados em antologias e revistas na web, além de escrever regularmente resenhas para o Jornal Rascunho. Em 2019, foi condecorada com o 3° lugar na categoria Conto do Prêmio Off-Flip de Literatura com o conto Urubus, que integra a antologia de mesmo nome, lançada pela Confraria do Vento.

***

A Antologia Postais é de uso exclusivo do site The Quarentena.

Sérgio Tavares é escritor, jornalista e crítico literário. Autor dos livros Cavala (Prêmio Sesc de Literatura 2009) e Queda da própria altura (Finalista do 1º Prêmio Brasília de Literatura).

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