A evolução da crítica literária – parte 2

As diferentes correntes críticas no Exterior e no Brasil até o século 21

Guilherme Mapelli Venturi

A crítica literária da universidade e do jornal

No período que abarca o fim dos anos 1940 em diante, Afrânio Coutinho, que estivera por um bom tempo nos Estados Unidos, e de lá voltou trazendo, principalmente, a teoria literária divulgada por René Wellek – o New Criticism – passou a combater o impressionismo crítico. Nessa nova teoria trazida por ele, propunha-se uma “análise” mais aprofundada, próxima à atividade científica. (NINA, 2007).

No entanto, ao mesmo tempo, iniciou-se o aparecimento dos Scholars, que  diferentemente de quem produzia a crítica de rodapé, achavam-se mais gabaritados, entrando, portanto, em duelo com aqueles e passando a redigir as críticas, embasados pelo que Afrânio Courinho defendia como “crítica estética”. (NINA, 2007 – grifo do autor). E assim, “[…]

pouco a pouco, os editores dos suplementos4 eliminavam os rodapés dos jornais e privilegiavam textos mais curtos, menos digressivos e mais objetivos” (NINA, 2007, p. 26).

Segundo Nina (2007) muitos acontecimentos se passaram daí em diante, mas dois merecem maior destaque. O primeiro foi o fato de o jornalismo ter se configurado como profissão, distanciando-se, assim, da literatura. Com a crítica literária não foi diferente, resultando no segundo acontecimento, afinal, nas universidades, nos anos 60, a crítica especializava-se cada vez mais, fazendo com que os jornalistas considerassem os jargões5 acadêmicos, uma linguagem obscura e de difícil compreensão, para o público do jornal. Nas duas décadas seguintes:

[…] entraram em cena os Releases produzidos pelas assessorias de imprensa, o que facilitaria – para o bem ou para o mal – o trabalho dos jornalistas-críticos, que passam a dar à crítica um tratamento mais superficial se comparado ao texto dos especialistas, voltando-se para os lançamentos do mercado editorial. (NINA, 2007, p. 27).

Já nos dias atuais, o cenário se inverte, ou seja, os acadêmicos voltam suas atenções aos jornais, pois neles encontram a oportunidade de se comunicarem com os leitores, além das universidades. Mas para isso, foi preciso que deixassem os jargões de lado e se adaptassem às regras do jornalismo moderno, a saber: objetividade, concisão e clareza. (NINA, 2007).

Nos dizeres de Nina (2007), consequentemente, criou-se o que pode ser visto como uma espécie de “antíteses das ciências”, termo que poderia expressar um impasse: enquanto os professores tornavam os discursos cada vez mais eruditos, nos veículos de comunicação, a linguagem escrita era simplificada, nos moldes no jornalismo moderno.

Em decorrência de todo esse percurso cronológico da crítica, afloraram-se, finalmente, as duas maiores modalidades dessa ciência, conforme se verifica a seguir:

Há, basicamente, dois tipos de texto: um mais técnico, produzido por acadêmicos de diversas áreas (sociólogos, historiadores, antropólogos, professores de literatura), que voltam às páginas dos suplementos na tentativa de escoar sua produção intelectual num ambiente extra-acadêmico, escrevendo textos ensaísticos; outro livre de jargões5, assinado por jornalistas que, muitas vezes, não têm nenhuma especialização na área. São dois mundos distantes, pois revelam formas diferentes  de perceber as obras e de transmitir essa percepção aos leitores. (NINA, 2007, p. 28-29)

Sobre essa distinção, outro estudioso, Durão (2016), nomeando cada uma das correntes, respectivamente, como crítica acadêmica e crítica de jornal, traz algumas considerações. A crítica acadêmica não se preocupa com o tempo que levará para redigir o texto nem com o espaço que este ocupará no livro ou qualquer outro suporte físico, e também, não pretende atingir à população em geral. Já a crítica de jornal, vê seu público como consumidor, portanto, redigindo textos de fácil compreensão e curtos. Assim, “[…] no limite, o jornal pode fazer o comentário de um livro como se estivesse planejando sua campanha publicitária”. (DURÃO, 2016, p. 13).

Ou ainda, segundo Barbosa (2009, p. 1): “Seria bem mais fácil aceitar a crítica enquanto um simples texto promocional e impressionista, agradável de se ler na pressa cotidiana. E assim é feita e consumida a crítica de literatura em nossa sociedade”.

Durão (2016) relata ainda, a dependência que uma tem da outra, ao dizer que: “Sem conexão com o jornal, a universidade definha, pois ele é em grande medida o único ambiente social organizado e de prestígio, para além da escola, a tratar de literatura.” e que “Por outro lado, sem a universidade, o jornal converte-se em butique, e a produção literária anual vira um desfile de moda”. (DURÃO, 2016, p. 13). Dessa forma, “A presença de acadêmicos ajuda a contrabalançar a deficiência de formação estrutural do jornalista, por definição, um especialista em generalidades”. (DURÃO, 2016, p. 13 – grifo do autor).

A crítica literária no Brasil e seus principais nomes

Como já depreendido, a crítica literária, no Brasil, teve início com a crítica de rodapé, nos jornais. Nessa época, segundo Barbosa (2009, p. 3) cabia aos críticos “autodidatismo, uma negação da teoria e de influências externas e um irracional desprezo por qualquer tema ou valor da cultura estrangeira”.

Por volta dos anos 50, Antonio Candido e Afrânio Coutinho, foram os estudiosos pioneiros nessa área, e ambos consideravam-na uma atividade que deveria ser praticada na Academia, devido ao seu caráter reflexivo, no entanto, discordavam quanto aos objetivos da crítica, pois para este, ela voltava-se à estética, e, para aquele, ao aspecto sociológico – também denominado de dialético. (BARBOSA, 2009).

A influência que Coutinho trouxe dos Estados Unidos foi o New Criticism, o qual, segundo a autora, não se vinculava a nenhum contexto histórico e era independente. Assim, Barbosa (2009, p. 6), ao analisar o viés defendido por Coutinho, relata que:

[…] o caminho mais adequado para o fazer crítico. A excessiva influência de fatores externos, como os de cunho histórico, fazia com que a obra literária em si mesma perdesse parte da força. O processo social e influências políticas não deveriam se confundir com fatores intrínsecos ao texto literário ou os elementos estéticos.

Para Candido, há ainda, o fato de que é um risco avaliar e destinar a obra a um registro documentário, pois se teria como instrumento de estudo, os fatores externos e os elementos voltados a ele, o que não daria conta de “compreender a abstração do mundo real a que um texto recorre para atingir uma maior expressão”. “Assim, com a licença poética e literária, pode-se moldar a realidade de forma a deixá-la mais ou menos verdadeira para quem a lê”. (BARBOSA, 2009, p. 9).

Apenas com o intuito de trazer a lume, há ainda, outros nomes de considerável importância à crítica, alguns dos quais a pena já não mais escreve, outros que ainda vivem, tais como: Sílvio Romero, Alceu Amoroso Lima, Álvaro Lins, Wilson Martins.

A crítica literária no Exterior

As correntes críticas originaram-se no exterior, chegando ao Brasil, onde se moldaram aos sistemas, conforme suas necessidades, ou seja, aqui se baseou e inspirou-se nas correntes de lá, mas não necessariamente, seguiu-se e aplicaram-se seus conceitos teóricos, com extremo rigor. Nesse sentido, pontua-se os devidos nomes e as devidas conceituações de tais correntes, para posteriormente, apresentar outras discussões. Ei-las, então: crítica biográfica, crítica determinista, crítica impressionista, crítica formalista, crítica estilística, nova crítica, crítica estruturalista, crítica pós-estruturalista, crítica sociológica, crítica semiótica, crítica psicanalítica, estética da recepção, crítica hermenêutica, crítica da criação, crítica marxista, crítica existencialista, entre outras.

Igualmente à Literatura, de qual nacionalidade for, e que ocorre tanto no país de origem quanto em outros afora, a crítica literária também se fez e ainda se faz presente, se não simultânea, em tempos muitos próximos, no que se refere à localização geográfica – no Brasil e no Exterior – além dos inúmeros representantes das produções bibliográficas, transitando entre autores e estudiosos da Literatura e afins.

Por essa razão, quanto à evolução histórica e cronológica da crítica literária, apresenta-se apenas os expoentes mais significativos, juntamente com os modelos críticos por eles defendidos.

Longino foi outro importante pioneiro da crítica, na segunda metade do século I a.C., opondo-se aos dois estudiosos anteriores – Platão e Aristóteles – por dar ênfase ao leitor e ao sublime, ou seja, ainda que apenas na teoria, teve-se a primeira tentativa de se fazer o que realmente é função dessa ciência: “julgar a qualidade das obras, discernir entre o “bom” e o “mau”. (MOISÉS, 2012, p. 683).

Horácio, no entanto, também por volta do século I a.C., “considera que o alcance moral da arte se efetua por meio de regras precisas e inflexíveis, o que converte a crítica numa disciplina normativa, didática e baseada em princípios básicos”. (MOISÉS, 2012, p. 684).

Mais à frente, um importante período para a crítica literária, foi o que abrangeu o Humanismo e o Renascimento, pois “a descoberta da cultura greco-latina deu origem a um extraordinário surto de estudos teóricos e de crítica literária, talvez como nenhum outro em qualquer tempo”. (MOISÉS, 2012, p. 685). Tempos decorridos, já no século XVI, segundo Moisés (2012, p. 685) tinha o seguinte postulado em vigor:

Em geral, a crítica literária obedecia, no século XVI e seguintes, aos ditames dos teóricos da Antiguidade, sobretudo os que se referiam à mimese. A criação literária, dependente das regras colhidas nos sábios do tempo, norteava-se de acordo com os modelos oferecidos pelos autores greco-latinos: a crítica neoclássica, “partindo dos conceitos aristotélico-horacianos, pretendeu codificar as normas da arte literária, tornando assim a crítica uma disciplina, não só autônoma, mas especialmente normativa. Criou-se então a crítica dos modelos e das regras. […] A crítica foi então erigida em uma espécie de ética literária, cuja função era predeterminar os meios de que os autores deviam utilizar-se para conceber as suas obras”.

Desde seu primórdio, a crítica já se preocupava com uma de suas principais problemáticas: o cuidado que se deve ter ao lidar com determinada obra. Tanto o é que, segundo Moisés (2012, p. 687 – grifo do autor), “Vários decênios antes deles (1711), Alexander Pope publicou An Essay on Criticism, no qual, alinhando-se com os adeptos de Aristóteles e Horácio, examina os critérios do bom gosto e as dificuldades para se proferir juízos imparciais e corretos”.

A crítica moderna é iniciada por Sainte-Beuve e percorre as décadas entre 1851 e 1870, período no qual não só surgiu a crítica de jornal, mas também, experimentou metodologias próximas à ciência, ou seja, em relação à obra literária assumia “uma posição isenta, impessoal, despida de preconceito ou espírito de sistema, enfim de todas as formas de apriorismo” (MOISÉS, 2012, p. 689).

Na sequência, têm-se dois outros importantes momentos, segundo Moisés (2012): o primeiro refere-se à crítica impressionista, iniciada na França, entre os fins do século XIX e os princípios do século XX; o segundo, ao pensamento estético de Benedetto Croce, por volta de 1902.

Em 1911, após J. E. Spingarn utilizar-se da expressão new criticism pela primeira  vez, um ano antes, tem-se início o modelo crítico de mesmo nome. No entanto, vale ressaltar que “Na verdade, a expressão new criticism engloba críticos e doutrinas nem sempre uniformes e unânimes” (MOISÉS, 2012, p. 691 – grifo do autor).

De acordo com Moisés (2012), a crítica marxista teve representatividade após 1920, além de se voltar à economia e à sociologia. Pouco depois, na Rússia, estabeleceu-se o que viria a ser denominado de Formalismo.

Já o Estruturalismo, no fim da década de 1960 em diante, teve seu momento de destaque. Seu sucessor, o Desconstrucionismo, manifestou-se por volta de 1967. (MOISÉS, 2012, p. 695).

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Sílvia Michelle Avelar Bastos. O espaço da crítica literária: a academia e os rodapés. Darandina Revisteletrônica – UFJF, v. 2, n. 1.

DURÃO, Fabio Akcelrud. O que é crítica literária?. 1. ed. São Paulo: Nankin Editorial, Parábola Editorial, 2016.

LIPPE, Eliza Márcia Oliveira (org.). Introdução à crítica literária. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2016.

MOISÉS, Massaud. A criação literária: prosa e poesia. ed. rev. e atual. São Paulo: Cultrix, 2012.
NINA, Cláudia. Literatura nos jornais: a crítica literária dos rodapés às resenhas. São Paulo: Summus, 2007.

Guilherme Mapelli Venturi é formado em Letras (Moura Lacerda), com pós-graduação em Português: Língua e Literatura, pela Universidade Metodista de São Paulo. Atualmente, faz graduação em Biblioteconomia e Ciência da Informação na USP. É escritor e crítico literário.

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