[Antologia Postais]: de Eduardo Quive para Mariana Travacio

O escritor Sérgio Tavares lança seu novo projeto que tem como objetivo a troca de correspondências entre escritores, cruzando o oceano

A antologia Postais estreia com uma correspondência entre Eduardo Quive (Moçambique) e Mariana Travacio (Buenos Aires)
A antologia Postais estreia com uma correspondência entre Eduardo Quive (Moçambique) e Mariana Travacio (Buenos Aires).

Desforra

Mariana Travacio

Tradução: Bruno Ribeiro

Estou trancado, em casa. Há um vírus, lá fora. Eles pedem que a gente se cuide. Eu fico, então, em casa, e olho essa foto. É a foto de Elena, de Elena atriz, de quando Elena ia aos ensaios e ia para as estreias e todos queriam vê-la, aplaudi-la, tirar uma foto com ela ou pedir um autógrafo. O que eu vejo é a foto de Elena na glória. Atrás dessa foto, eu sei, há outra Elena. Uma Elena que ela queria esquecer, como se fosse possível apagar uma parte da história, desintegrá-la, fingir que nunca existiu. Eu gostava da Elena. A esperava, quando voltava dos ensaios. Preparava comida. Perguntava como tinha ido lá. Ela estava feliz nessa época. Me olhava com olhos de desforra. Eu lhe devolvia um olhar um pouco desmanchado entre a admiração e a indulgência. Neste olhar, nos dizíamos tudo. No fundo desses olhos de desforra havia um resto de incredulidade na Elena: como se esse trecho de sua vida houvesse sido emprestado e não fosse ela quem estivesse ali, em cima do palco, costurando aplausos. Mas nem sempre Elena tinha essa humildade. As vezes o sucesso lhe subia á cabeça. Quando isso ocorria, Elena não era fácil de lidar. Mas eu a aguentava, porque a vida havia sido infinitamente mais indulgente comigo. Ela, em compensação, que havia nascido de um susto, não tinha como batalhar com isso. Ainda nos dias em que ela me olhava desde essa supremacia do sucesso, como se eu fosse uma nada, um homem desvaído, uma pessoa que nunca alcançaria esse minuto de glória, eu sabia que no fundo desses olhos debochados havia um suplício, uma necessidade de certificar que o passado não voltaria, que havia sido elidido, apagado, eliminado para sempre. Eu suponho que algo nessa luta a esgotou. Por isso abraço essa foto. E não deixo de olhá-la nestes dias de confinamento. É a foto da última estreia. Eu fui vê-la. Coloquei um chapéu para surpreendê-la. A esperei na porta com um buquê de flores. Não me esqueço dos seus olhos, quando me viu, com o chapéu e as flores. Pulou em cima de mim. Disse que eu era o amor da sua vida. Disse assim: Te amo para toda a vida. Enquanto, ria sem parar, como riem as crianças, não só com a boca, mas com os olhos, o estômago, com o corpo inteiro. Assim era como Elena ria quando saía do teatro, exultante, ela mesma como uma exageração de tudo o que é possível. Essa noite, voltamos caminhando para casa, de mãos dadas, sorridentes, as pessoas paravam na rua para nos olhar, ela extravagante, com esse véu e esse vestido branco e essa capa preta, e eu com o chapéu ridículo, e nós dois tão leves, pura gargalhada, caminhando, de mãos dadas, ou pulando, ou dançando, como se quiséssemos explicar ao mundo para que servem as ruas. Mas entramos em casa e algo ocorreu. Como se o ar doméstico houvesse a irritado. Ela tirou o véu e me encarou: quero comer, disse; prepara a janta. Não entendi o que aconteceu com ela. Sei que ela me olhou nos olhos e disse isso: prepara a janta. Algo em sua voz me incomodou. Havia algo imperioso em seu tom. Não quis arruinar o momento. Contei até dez, até vinte.  Comecei a cozinhar, em silêncio, preparando o arroz que ela tanto gostava. Cortei a cebola com a visão cravada na tábua de madeira. Não queria que Elena percebesse minha raiva. Estava concentrado na faca. Não conseguia acreditar no que estava ocorrendo. Escutei atrás de mim sua voz: vou tomar banho, já volto. Eu continuei cortando cebola, a refogando, como ela gostava, até que estivesse transparente, para colocar o arroz e cozinhá-lo, em fogo lento. O arroz já estava quase pronto e Elena não voltava. Não entendia por que ela demorava tanto. Decidi ir chamá-la. Fui ao banheiro, parei diante da porta e perguntei: Elena, como você tá? Houve uns segundos de silêncio, de nada, de desassossego, até que Elena abriu a porta. Não podia acreditar no que estava vendo. Elena estava toda molhada e não havia tirado a roupa da peça. Seguia com seu vestido branco e sua capa preta e havia colocado o véu de volta. Parecia extraviada. Perguntei o que estava acontecendo e ela não respondeu. Estava dura, muda. A peguei pelos ombros e a chacoalhei como se esse gesto pudesse despertá-la do letargo, mas ela seguia imóvel. Elena, por Deus, disse. E Elena muda, petrificada, sem me dizer nada, toda molhada, com essas roupas. Cobri-a com uma toalha, a levei até a cozinha, a coloquei na mesa, servi o arroz: come, eu disse, preparei o arroz que você gosta. Não me olhou, não se moveu, não respondeu. Servi um pouco de arroz e me sentei na frente dela. Vamos comer, eu disse. E comi. Pensei que Elena emularia meu gesto. Mas não. Ela seguia dura, enrolada na toalha, com esse véu sob a cara: assim eu não conseguia olhar nos seus olhos, não podia saber o que acontecia com ela. Senti medo. Continuei comendo o arroz até que a amargura trancou mina garganta e não pude continuar. Fiquei de pé. Tirei o véu dela. Ela não reagiu. Me deixou tirá-lo. Busquei seus olhos, mas Elena não tinha visão. Estava oca, os olhos vazios, como se já não pudesse enxergar, nem falar, nem dizer nada. Assustei-me. Elena, por Deus, voltei a dizer. Tirei sua toalha, a coloquei de pé, a olhei de frente, a sacudi outra vez, desesperado. Elena começou a rir. O que brotava do seu corpo era uma gargalhada furiosa, como se estivesse contida há séculos. Isso durou por vários minutos até que ela começou a soluçar e a gargalhada parou. Elena não disse nada, só pegou o prato que eu havia a servido. Estava de pé, vestida de noiva, com o prato na mão. Entre todas suas extravagâncias, jamais a havia visto assim, tão distante. Elena, por Deus, disse de novo, quase implorando. Então Elena me olhou e foi como se um raio me partisse no meio. Me olhou com um desprezo insuperável. Tive que abaixar a cabeça. Virei de costas. Em seguida escutei o prato de arroz se estralando no piso. E os passos de Elena em direção da porta. Nunca mais fiquei sabendo de Elena. Nem sei para onde ela foi e não sei o que se deu da sua vida. Só que agora estou aqui, e há um vírus lá fora, e eu me abraço com essa foto.

*Mariana Travacio nasceu em Rosário, cresceu em São Paulo e atualmente reside em Buenos Aires. Ela é formada em psicologia pela Universidade de Buenos Aires, é mestre em Escrita Criativa pela Universidade Nacional de Tres de Febrero e tradutora de francês e português. Foi professora da Cadeira de Psicologia Forense da Faculdade de Psicologia da UBA. Suas histórias receberam inúmeros prêmios nacionais e internacionais e tem publicações em revistas e antologias no Brasil, Cuba, Espanha, Estados Unidos, Argentina e Uruguai. É autora dos livros, Manual de Psicología Forense (1996), Como si existiese el perdón (2016), Cenizas de carnaval (2018) e Cotidiano (2015), livro de contos publicado, no Brasil, pela Editora Moinhos.

***

A Antologia Postais é de uso exclusivo do site The Quarentena.

Sérgio Tavares é escritor, jornalista e crítico literário. Autor dos livros Cavala (Prêmio Sesc de Literatura 2009) e Queda da própria altura (Finalista do 1º Prêmio Brasília de Literatura).

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