Um artigo de ficção, com retoques autoficcionais, para tentar entender o real

O jornalista Antonio Munró Filho, colunista do The Quarentena, está de volta para abordar questões relacionadas aos mistérios e dúvidas sobre a realidade e a ficção em um texto saborosíssimo, cheio de reflexões pertinentes.

“Há um vasto mundo interior dentro de ti.” Essa foi uma das frases mais emblemáticas que já ouvi em conversa com uma amiga. Nunca havia pensado sob essa ótica e, de fato, muitas vezes não precisei sair às ruas para buscar elementos que me complementassem. Havia, no meu imaginário, uma enorme variedade de diversões, campos de estudos e curiosidades para serem exploradas. Como todo jornalista que se preze, tenho lá minhas  pretensões literárias e acredito que esse interior gigantesco seja um atributo para dar vida a alguns arquivos guardados nos escaninhos da memória.

Não acreditar em acasos, talvez me ajude a entender por que escolhi seguir a trilha dos estudos autoficcionais em minha vida acadêmica. Muitos teóricos já se debruçaram sobre o assunto, claro, mas como todo conhecimento científico é uma grande corrida de revezamento na linha do tempo, sou mais um anônimo a percorrer essa trilha e tentar levar adiante as reflexões sobre esse campo. Não foram poucas as vezes em que se disse que o ato de escrever é, antes de tudo, falar de si. A variedade de abordagens é grande (só na Literatura Brasileira Contemporânea temos grandes exemplos desta vertente como Histórias Mal Contadas, de Silviano Santiago, o “polêmico” Divórcio, de Ricardo Lisias, o improvável Descobri que Estava Morto, de J.P. Cuenca, e o recomendadíssimo Solidão e Outras Companhias, de Márwio Câmara), mas é impossível negar que em cada obra, autoficcional ou não, há um bom “pedaço” do autor nas páginas.

Alguns vão além e colocam seus próprios nomes entre os personagens. Daí, vem aquela dúvida: o autor é o personagem ou o personagem é o autor? (“O poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente”, já dizia Fernando Pessoa.) Independentemente da resposta, que pode variar conforme o ponto de vista, um fato parece se cristalizar: toda escrita, no fundo, é uma escrita de si. Na contemporaneidade, repleta de egos inflados e selfies felizes, o pronome eu se tornou o maior conjugador de verbos da produção literária (esse artigo não me deixa mentir!). A individualidade estrelada nunca esteve em tamanha evidência. E isso não é uma crítica, esclareço. Trata-se de uma constatação. A pergunta que me faço no momento é: como a pandemia com alto poder viralizante (e letal) reforça ainda mais a cultura do eu? Pergunto isso com base na grande quantidade de lives, algumas de caráter puramente fútil, que pipocam na tela do celular…

Só o tempo para ajudar a formular essa resposta, mas o fato que observo, seja em conversas com amigos, acadêmicos e professores é que muitos se sentiram perdidos, sem chão e prostrados. Principalmente nas primeiras semanas da quarentena. O ser humano, sempre adaptável às mudanças de marés, logo estabeleceu uma rotina que passou a ser chamada de “o novo normal”, que fez a vida seguir com o mínimo de sentido nestes dias em que não há sentido algum… Cada um atravessa essa pandemia de forma individual (por mais que divida a  janelinha do aplicativo com outras pessoas), a experiência é intrinsicamente pessoal. É neste ponto que as escritas de si ganham força, no sentido de ajudar cada “eu” não apenas absorver esses dias estranhos, como entendê-los, carregá-los de sentido e continuar caminhando.

Conheço pessoas que haviam perdido o hábito de escrever e, nesses dias, voltaram a colocar as alegrias e as angústias no papel. Certamente, alguns desses relatos ganharão destaque num futuro breve (espero que esse futuro esteja realmente lá) e trarão escritas de si com requintes autoficcionais. Porque, veja bem, é impossível passar por uma tormenta dessas sem recorrer à imaginação. A ficção ajuda as pessoas a conceberem novas realidades, novos sonhos, novos desejos e novos porvires.

É nessas horas, em meio a tantas reflexões, que retorno à fala da minha amiga, que abriu esse texto: “há um vasto mundo dentro de ti”! Foi (e tem sido) graças a essa imensidão interna que pude me abrigar em recantos, uns alegres e outros não, para observar toda essa confusão! Talvez sem pensar racionalmente,  essa escrita “de mim”  ganhou vida e, com retoques de autoficção, me  ajudam a atravessar as loucuras que marcam o ano de 2020. Resumindo de forma grosseira é isso que a ficção, seja ela auto ou não, faz: tenta driblar, nem que por alguns poucos minutos, as duras realidades que nos são impostas a todo momento, pois a “vida real” é permeada por variada quantidade de autoficções que devemos fruir para entender o contexto maior e não abraçá-las cegamente como se fossem a “verdade” absoluta…

Agora é hora de partir para outra ficção a fim de amenizar a realidade!

Antonio Munró Filho é jornalista e crítico literário. Especialista em Literatura e mestrando em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Colunista e editor assistente do The Quarentena.

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