Eu, que não me reconheço no espelho

A escritora Maya Falks estreia sua coluna com um relato sobre as suas trivialidades domésticas durante o período de isolamento social.

A quarentena, por definição, é um resguardo de quarenta dias. Mas como tudo o que a gente toca hoje em dia vira relativo, as pessoas estão fazendo quarentena de 10, 15, 30 dias; outras fazem quarentena nas horas antes e depois do mercado, da farmácia, do passeio com o cachorro e da corridinha no parque.

Tem gente que não consegue fazer nenhum tipo de quarentena sem surtar, tem gente que surta se sair da quarentena, e tem gente que, por ser surtada, precisa da quarentena. Me enquadro na última categoria. Me divido entre um pai que odeia ficar sozinho e uma mãe que odeia ficar em casa, enquanto eu, por natureza, amo ficar sozinha em casa.

É no silêncio e na solidão do meu quartinho 2x3m que eu sou mais livre do que aqueles que fogem da quarentena com o cachorro debaixo do braço pra ter uma boa desculpa. É onde estão meus livros e meu cadernos, onde leio e viajo na imaginação dos meus colegas, onde escrevo de viajo para longe de mim mesma.

Eu, que não me reconheço no espelho, posso ser quem eu quiser e estar onde eu quiser mesmo sem grana, sem ânimo, mesmo fragilizada pela medicação que minha mente inquieta me exige. Mesmo que minha vida se resuma a uma sobrevivência cama, mesa e banho, posso ser a imperatriz de um reino no núcleo da terra, posso ser presidente de multinacional, posso ser a mulher presa injustamente que jura vingança, posso ser um homem e fazer xixi de pé (na minha imaginação, obviamente). Eu, que não me reconheço no espelho, não enxergo no meu rosto marcado de olheiras imensas e o sinal dos meus quase 40 anos embrulhados em lágrimas a imagem exata de quem eu sou.

Porque não sou a imagem que o espelho me devolve.

Enquanto eu tiver minha escrita e minhas leituras, eu não preciso ser a imagem refletida no espelho, não preciso escapar do meu bunker à prova de vida social radioativa. Não preciso sequer trocar meu pijama pelas minhas roupas largas, velhas e desconfortáveis.

Eu sou e vou onde eu quiser. E sem deixar cair uma única gota de suor.

O tal do isolamento social se torna muito mais fácil e seguro quando você tem como aliado um mundo inteiro onde o Covid-19 simplesmente não existe.

A literatura não me salva de chorar a morte dos que sucumbem ou perder o sono rezando pelos amigos infectados, como nunca me salvou de igual sofrimento por tantos outros males que nos assombram cotidianamente, mas a literatura tem me salvado diariamente daquela criatura que o espelho me devolve e que eu, definitivamente, não reconheço.

Maya Falks nasceu Márcia, no dia mais frio de 1982. Começou a criar histórias aos 3 anos, ditando as narrativas à mãe. Escreveu seu primeiro romance aos 7 anos, o segundo aos 10 e a primeira antologia poética aos 14, nenhum deles publicados. Atualmente Maya é publicitária, jornalista, estudante de letras e autora dos livros “Depois de Tudo”, “Versos e Outras Insanidades”, “Histórias de Minha Morte” e “Poemas para ler no front”. Para 2020 está previsto o lançamento de “Santuário”.

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