Costurando o isolamento

Matheus Arcaro

Ao ouvir a notícia na televisão, Miguel puxou o ar do assoalho do corpo magro e miúdo. É bem verdade que não se falava em outra coisa nos últimos dias. Mas ali, naquele instante, mostrava-se reluzente a confirmação oficial. Lúcia ajeitou o tapete e sentou-se novamente no sofá comprado semanas antes. Olhando para o porta-retrato ao lado da TV – a foto da avó sorridente –, Miguel apertou os dedos da mãe com mais força. A mulher respondeu com os olhos, uma manta negra a cobrir as aflições do filho. Pelo menos era esta sua impressão. Mas é curioso notar que a mente humana não se entrega de modo tão promíscuo, mesmo quando se tem nove anos e alguns meses de idade. Nem sequer à própria mãe.

Miguel emprestava os ouvidos e os olhos ao governador na tela da TV. Embora não compreendesse todas as palavras que saltavam daquela boca envelhecida, o que lhe interessava já tinha sido colado à memória: não se poderia sair de casa pelas próximas três semanas.

–  Essa doença fica no ar por muito tempo, mãe?

Lúcia respondeu que o vírus sobrevive no ar por muitas horas e, por isso, seria perigoso passear por aqueles dias.

Miguel sentiu como se seus órgãos estivessem em festa. Mas achou prudente não abrir as portas do corpo para que o sorriso escapasse. A situação era séria, exigia ponderação. Ele já sentira o hálito da morte por duas vezes: a avó materna e o pai, embora sobre este as lembranças não fossem tão sólidas. Sabia que não seria respeitoso mostrar sua alegria num momento em que pessoas podem morrer. Mas como escondê-la se teria sua mãe por três semanas inteiras, só pra ele?

Lúcia decidira dispensar a empregada na noite anterior. Com que dinheiro ela vai comprar comida, mamãe? Não se preocupe, Miguel, vou manter o pagamento da Assunção por este tempo. O menino pensou que pra tudo na vida é preciso dinheiro, e as pessoas que não têm o mínimo ficam muito magras como eram os filhos de Assunção quando crianças. Ele não sabia nomear, mas a palavra ‘injustiça’ começava a roçar seu sistema nervoso. Talvez, por isso, é que mamãe trabalhe tanto, pensou soltando a sentença pra si. Miguel conhecia Assunção desde muito pequeno, ela faxinava a casa uma vez por semana. Quando a avó deu sinais de debilidade física, Lúcia a contratou como empregada fixa. Assunção estava imersa à frente de Miguel, águas salgadas. O menino limpou as lágrimas com as costas das mãos numa tentativa de dissolver aquela coisa que crescia em seu peito. Foi para o quarto pensando em quem cuidaria dele por aqueles dias. E dormiu.

Lúcia trabalhava numa grande agência de publicidade, diretora de criação. Construiu sua carreira ao longo de vinte anos nas mesas de reunião, nas mensagens trocadas tarde da noite para fechamento de materiais impressos, televisivos, cibernéticos e, sobretudo, em frente ao computador do escritório. Agora teria que fazer tudo de casa. Sem Assunção. Com Miguel.

O menino observou Lúcia desligando a TV como se apertasse um botão enguiçado. O sol da manhã incidia diretamente nos dedos finos e pretos da mãe. Aquele gesto trouxe pra ele a imagem dos mesmos dedos acariciando o rosto cansado da avó sob o véu branco-transparente. Miguel não sabia bem conversar com a mãe, pouca prática. As dúvidas sobre tarefas, os conflitos com os amigos, os medos durante o cair da tarde, tudo isso era ancorado por Assunção desde que a avó morrera no ano anterior. Não fique assim, mamãe, a gente vai ficar bem. Lúcia beijou os cabelos crespos do filho e envolveu aquele corpinho como se jamais o tivesse abraçado. E, daquele jeito, ela nunca fizera mesmo. Miguel sentiu como se as carícias fossem penetrar em sua pele, como se a mãe apalpasse as essências do mundo que o habitavam.

– Quantos dias cabem num abraço?

– Há coisas que não somos capazes de medir, meu filho.

A frase, voz trêmula, parecia dita por outra pessoa, alguém que estava nascendo naquele instante. Miguel partejava uma Lúcia que cresceria pelas semanas seguintes.

Ela intuía que, no lugar do passado – tecidos pesados que escondiam ausências – seriam cosidas fitas coloridas. Começariam finas, é verdade. Mas a cada dia, uma nova fileira de pontos em cruz se somaria às anteriores para robustecer os laços. As palavras da mãe fizeram Miguel pensar na avó. Talvez a frase sobre a impossibilidade de se mensurar afetos tenha sido dita por aquela velha preta, a mulher com quem Lúcia, na infância, aprendera a costurar panos e palavras.

Matheus Arcaro é Mestre em Filosofia contemporânea pela Unicamp. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e também em Comunicação Social. É professor, artista plástico, palestrante e escritor, autor do romance O lado imóvel do tempo (Editora Patuá, 2016), dos livros de contos Violeta velha e outras flores (Editora Patuá, 2014) e Amortalha (Editora Patuá, 2017) e do livro de poesias Um clitóris encostado na eternidade (Editora Patuá, 2019) . Também colabora com artigos para vários portais e revistas.

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