Após polêmica, Pedro Almeida volta atrás e se desculpa: “Fiz um post com dados incorretos”

O curador do prêmio Jabuti de Literatura se retrata nas redes sociais, mas alega que não pode ser alvo de censura e patrulhamento

Depois de toda a confusão causada por um post publicado no último sábado (23), em que negava a gravidade do Covid-19 no Brasil, o editor Pedro Almeida se retrata nas redes sociais, pedindo desculpas por ter confiado em dados falaciosos.

Possivelmente, assessorado por advogados e, talvez, pela própria Câmara Brasileira do Livro (CBL), entidade da qual é ligado, Almeida escreveu uma carta pública, após a fervorosa manifestação de escritores, jornalistas e profissionais do livro, que se mostraram indignados com a sua postura diante do atual cenário em que o país se encontra. Um manifesto, idealizado pelo jornalista Afonso Borges, integrou mais de cem assinaturas, pedindo a saída do curador.

Em seu pronunciamento, o editor corrige sua postura, mas alega que não pode ser alvo de censura e patrulhamento por fazer parte de um prêmio importante como o Jabuti.

Segue abaixo o texto na íntegra, divulgado na manhã desta segunda-feira (25) em sua rede social:

RETRATAÇÃO

Fiz um post com dados incorretos; errei por acreditar que eram corretos. Assim que amigos me avisaram disso, apaguei o post. Não desejava colocar inverdades e, como jornalista, sempre confiro antes de divulgar. Mas apostei na fonte.

PANDEMIA

Lamento profundamente todas as mortes por COVID-19. Tenho amigos que perderam parentes por conta dessa pandemia, dei toda a minha solidariedade e afeto a todos eles na época em que essas perdas aconteceram. Uma amiga perdeu o pai e é muito próxima a mim. Ela sabe que nunca desprezei essas mortes e foi a primeira a me dar apoio quando as redes começaram a discutir meu post, pois sabia que o sentido que ele ganhou não foi o mesmo de quando o escrevi.

ISOLAMENTO

Foi criado um manifesto afirmando que sou contra o isolamento. Está equivocado. Não sou contra o isolamento, não nego o vírus nem seu potencial. Ao contrário, me preocupo com ele e recomendo a todos que mantenham o distanciamento social o máximo que puderem, e sigam as recomendações das autoridades médicas para a devida higienização neste período tão angustiante e preocupante.

TRABALHO SOLIDÁRIO

Em nenhum momento neguei a necessidade de isolamento, mas descobri que há muita gente que não tem como fazer essa escolha. E resolvi fazer algo. Quem me acompanha nas redes sociais sabe que tenho tomado todos os cuidados e seguido todos protocolos para realizar esse trabalho com segurança, porque considero imperioso enfrentar a COVID 19 com solidariedade e empatia. Desde o início da quarentena decretada em São Paulo, tenho dedicado vários dias por semana a distribuir refeições, cestas básicas, produtos de higiene, agasalhos e cobertores a moradores de ruas, de albergues, favelas, prostitutas, travestis, crianças de rua, detentos recém-libertados fora de sua cidade de origem. Sou testemunha participante de que enfrentamos uma situação desesperadora para quem não tem condições de moradia ou reserva financeira.

HISTÓRIA

Nasci numa família que sempre realizou atividades caritativas desde a década de 1960. Ver hoje tanta gente desempregada e nas ruas me fez perceber quantos correm mais riscos que eu. Tive medo de pegar o vírus? Claro, mas sempre fui uma pessoa de frente de batalha. Então recebo surpreso a notícia de que meu post foi reduzido à voz de “um negacionista”. Me recuso a aceitar essa acusação, ela simplesmente não é verdadeira. E estou nas ruas porque desejo evitar mais mortes, mais desespero.

CENSURA E PATRULHAMENTO

Opiniões e posts que emito em minhas redes sociais pessoais não podem ser confundidas ou estendidas às instituições com as quais colaboro. Sou livre para pensar e me expressar. Não aceito censura. Quando erro, reconheço e me desculpo. Tenho opiniões que ora desagradam à esquerda ora à direita e não vou admitir censura, nem viver em regime de autocensura. Sou homossexual e ateu. Terei de fingir algo que não sou para ocupar um cargo? Se fizer isso uma vez, perco a minha voz e o meu respeito próprio. Não há no meu trabalho profissional nenhum desabono, nem sobre meu caráter, nem sobre minha capacidade de ouvir todas as vozes.

PRÊMIO JABUTI

O Prêmio não tem nada a ver com o meu post. Os premiados são avaliados por aspectos artísticos e técnicos por um corpo de jurados formado por nomes respeitados em suas áreas. O conselho do Prêmio é composto por quatro pessoas que, muitas vezes, pensam diferente de mim e nos respeitamos. Também existe uma Comissão da Câmara Brasileira do Livro que acompanha as atividades da seleção: não estamos diante do trabalho de uma única pessoa. A edição de 2019 do Prêmio foi um grande sucesso, recebi o reconhecimento de centenas de pessoas do mercado, inclusive daquelas que discordam de mim em muitos domínios. O nível elevado que o Prêmio alcançou resulta da atuação de um número enorme de profissionais que trabalham para valorizar o livro e a leitura no Brasil. E é isso que deve importar.

MEUS SENTIMENTOS ÀS FAMÍLIAS DE TODAS AS VÍTIMAS DA COVID-19.

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