Você não está sendo filmado, mas sorria de verdade

Antonio Munró Filho

Luvas plásticas me tocavam quando despertei. Via olhos, mas não bocas nem narizes. Via olhos, testas e cabelos, foi o que percebi quando minha visão melhorou. Não via bocas mas ouvia vozes, que brotavam de algum lugar atrás daquelas máscaras. Estavam (ou sempre estiveram?) todos mascarados… Bipes ao fundo se distribuíam num som que se tornava incômodo, como as azuladas lâmpadas fluorescentes, algumas falhavam aqui e ali, ampliando a sensação de terra arrasada. Era difícil saber direito de qual máscara saíam algumas vozes porque os olhos eram inertes, cansados de uma árdua e longa batalha. Antes de cair no sono de novo, tive uma fração de pensamento: “fui abduzido!”

Não, foi algo pior…

Acordei! Ao abrir a geladeira, na manhã seguinte (pois me parecia ser um novo dia), vi que além da garrafa de água gelada, a qual molhei a garganta com goladas sedentas, não havia quase nada. Era hora de ir ao mercado.  Na rua, as poucas pessoas que vejo estão… mascaradas, algumas com luvas até!

Caramba, não foi um sonho…

Toco meu rosto e vejo que sou o único a ter a boca visível, as narinas em contato direto com o ar da rua… Ao me ver, uma jovem senhora, me olha incrédula. A abertura repentina de sua pupila por trás de grossas lentes que ampliam aquele globos oculares verdes parecem me dizer: “Você tocou o rosto com a própria mão?”.

Sigo o caminho, continuo a não ver bocas e narizes, apenas alguns olhos distantes que teimam em me focar… Será que há algo errado comigo? Será que esqueci de pentear o cabelo antes de sair, afinal, mal acordei e cá estou a caminhar em direção ao mercado? Lembrei que para essas situações sempre taco um boné, a salvação dos preguiçosos com cabelos temperamentais. Não era isso. Devia estar com cara de poucos amigos, pois percebi que era o centro das atenções e não entendia bem o porquê, nem votado no Bolsonaro eu tinha para aquela gente toda arquear as sobrancelhas daquele maneira…

Não me deixaram entrar…

Sem ser tocado, fui barrado na entrada do supermercado. Se também não estivesse mascarado, o segurança certamente teria perdigotado em mim ao berrar para que eu não entrasse. Não sei bem se a voz era dele, mas deduzi que a ríspida dublagem parecia vir daquele olhar vidrado em minha direção. “É preciso estar de máscara para entrar aqui”, disse baixando o volume.

Vi meu reflexo desmascarado…

Antes de tentar entender o que acontecia (será que eu não havia despertado de um pesadelo e já entrara em outro?), lembrei-me de toda boa literatura que tive acesso nesses meus anos de vida. “Somos atores da vida real, meu amigo, mascarados sempre estivemos, mesmo aqueles que dizem não estar”, filosofei com boca, nariz e olhos, mas em silêncio, apenas encarando os olhos vidrados… “Esses olhos devem ter votado em, bem… você sabe quem…”, foi o segundo pensamento pelo qual fui atravessado sem sequer ter realmente pensando, veio de supetão… Percebi que o fato de eu ter paladar e olfato à mostra me diferenciava dos mascarados… Olhos, em destaque naqueles rostos transfigurados, me encaravam em diversas cores. Castanhos, azuis, verdes, amarelados ou avermelhados, toda essa diversidade de globos estavam voltados para mim…

Pulei da cama…

Era o segundo pesadelo que tinha durante o sono. “Acho que tenho de diminuir a dose de vinho da madrugada”, pensei enquanto ia escovar os dentes.  Foi ao ligar a TV que voltei ao que se convencionou chamar de realidade, apesar de ela, muitas vezes, parecer uma ficção grotesca. O mundo estava infestado por um vírus que não apenas fez todos os mascarados  usarem máscaras (às claras, digo), mas que parece ter dado destaque ao que realmente importa na vida das pessoas, a duras penas, concordo, mas qual mudança drástica vem sem uma grande… mudança?  Olha eu aí de novo, filosofando a essa hora da manhã (ou será tarde?)…

Só se encontra quem se perde…

Com as imagens do real invadindo minhas sensibilidades é que fui me dando conta de que meus pesadelos eram, na verdade, uma tentativa de escapar desse mundo mascarado… Deixar meu sorriso, mesmo que torto, fazer contato direto com os olhos alheios e… contagiá-los! Convenhamos, assim como você, prefiro mil vezes a beleza de um sorriso (mesmo que desdentado, esses, aliás, são os mais sinceros, pois escapam em meio à vergonha de não ter dentes) do que olhares raivosos! Eita! Hoje definitivamente estou filosófico…

Tenho de comprar mais vinho…

O olhar terno aquece a alma, mas um sorriso, fala sério, faz cócegas na alma! Esse tal vírus pode até encobrir, mas não eliminará os nossos sorrisos. Sempre que choveu, parou. Então, uma hora eles brotarão de novo, com força total e tomara que sejam mais plenos do que nunca, verdadeiros e traduzam o que realmente vêm de nossas almas… Uma coisa que esse vírus tem nos ensinado, ainda que dolorosamente, é que chegou a hora de vivermos plenamente. Seja o que você quiser ser, ame o que você desejar, sorria com a simplicidade da vida ou com suas próprias falhas… Nem que seja uma homenagem a todos aqueles que sucumbiram diante do ataque viral… Seu sorriso é maior do que o vírus e ele voltará a alegrar a vida das pessoas do seu entorno.

É preciso estar aberto a novas aprendizagens.

É com a alegria dos sorrisos incontidos (mesmo que provisoriamente protegido por máscaras) que marco a minha estreia no site The Quarentena, um lindo espaço surgido de um momento nada bonito. Não é assim que nascem os poemas mais belos? A arte, tão atacada nesse país de olhos vidrados e discursos prontos, salva. E o The Quarentena é apenas mais um novo espaço para que ela abrace a todos e faça que sorrisos coloridos se espalhem em meio a tanto cinza…

Bora aprender a sorrir pelos motivos certos!

Antonio Munró Filho é jornalista e crítico literário. Especialista em Literatura e mestrando em Literatura, Cultura e contemporaneidade pela PUC-Rio. Colunista e editor assistente do The Quarentena.

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