Análise literária: romance histórico de Nara Vidal revela certa totalidade sobre o que é o Brasil

No premiado “Sorte”, sua protagonista vai enfrentar todas as desgraças consequentes a uma sociedade tão desigual, tanto no Brasil quanto na Europa

Alexandre Rabelo

“Sorte” é o primeiro romance da escritora mineira Nara Vidal (Editora Moinhos) e o único livro brasileiro a ser contemplado no último prêmio Oceanos. Não é à toa, se pensarmos que este prêmio tende a privilegiar obras de interesse transatlântico entre os países de língua portuguesa.

O romance é narrado por uma jovem irlandesa que, como muitas famílias britânicas, sofre a miséria advinda com a revolução industrial no começo do século XIX. Seu pai aposta na imigração para o Brasil, no auge do escravismo, numa época em que a mão de obra europeia ainda é incipiente.

A jovem vai enfrentar todas as desgraças consequentes a uma sociedade tão desigual, tanto no Brasil quanto na Europa: a doença, o abandono, a injustiça, o machismo, a falta de oportunidades colocada pela estratificação social. É com força de resistência, mas sem nenhuma esperança tola, que ela vai passar por cada experiência. Essa é sua sorte. Busca sempre algum traço de contato humano mais real, o que acaba encontrando principalmente entre outras mulheres, negras ou brancas, desprovidas até do básico, apoiando-se sobretudo na constatação de uma impossibilidade de mobilidade social.

Qualquer pedaço de sol a irradia: um amor mentiroso, um filho destinado a ser tirado de suas mãos, uma compota de frutas, um pedaço de chão, uma rotina indigna. Não se trata de uma resignação, mas de um modo de continuar com a alma viva. Ainda sobre esse panorama subjetivo, é interessante observar como ela mata qualquer sentimento por cada membro de sua família, corajosamente não os desculpando pelo amargor a que cederam, imersos nas lides da miséria.

Um dos pontos fortes do livro é exatamente sua não idealização da patria mater. Nunca cogita voltar para a Irlanda. Reclama do sol do Rio de Janeiro, mas ainda mais do frio europeu. De certo modo, sabe que aqui terá mais comida do que na Irlanda. Outro ponto forte é seu espelhamento com o mundo de hoje. Não se trata de uma narrativa que fala de uma miséria já passada, mas sobre a origem de diversas misérias que ainda vivenciamos em escala cada vez maior. Talvez essa seja a característica de todo bom romance histórico.

A escrita é bem sucinta. Os capítulos raramente ultrapassam duas páginas. As descrições são surpreendentemente sucintas para um romance histórico. Vidal escolhe muito bem um ou outro fragmento de imagem para nos apresentar cenários separados por um oceano, mas tão próximos dos bolsões de miséria vistos hoje em qualquer nação.

Capa do livro “Sorte”, de Nara Vidal.

O foco não é um retrato de uma época exótica à nossa, mas seus pontos de contato, como já mencionei e ressalto. Nesse sentido, o bem sucedido romance de Nara Vidal se instala numa tradição que fica cada vez mais forte não só na literatura brasileira, mas mundial: esses relatos de mulheres imigrando, buscando algum tipo de reparação histórica. Tal é o caso de “Um defeito de cor”, o romance já clássico de Ana Maria Gonçalves, ou do recente “Por cima do mar”, de Deborah Dornellas. São livros que inserem a experiência da mulher numa narrativa épica, envolvendo diferentes gerações, tempos históricos, geografias. Uma tendência que certamente ainda renderá muitos frutos necessários.

A questão racial também é muito bem pontuada no romance. Aqui, a sororidade é o que vence o racismo e aproxima mulheres de origens tão diversas. Mas não se trata de uma sororidade cega. Também temos como antagonistas as freiras de um convento para mães solteiras. A religião a serviço não da docilidade, mas de uma rigidez de caráter que se alinha totalmente com o sistema escravista e predatório.

Por essas e outras questões, este livro é um dos mais fortes desta nova onda dos últimos anos composta por romances que, a partir de um lugar de fala mais específico, consegue revelar certa totalidade sobre o que é o Brasil. Não é pouca coisa.

SORTE

Nara Vidal.

Editora Moinhos.

100 páginas.

Alexandre Rabelo é escritor, produtor cultural e curador do evento Mix Literário. Autor do livro “Itinerários para o fim do mundo” (Editora Patuá). Reside em São Paulo/SP.

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